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Full text of "Tragédia de D. Ignez de Castro"

TRAGEDIA 



D £ 



D.IGNEZDECASTB 




A C T O R E S. 



ÊlRei D. Affonfo. 

® Príncipe D. Pedro feti filho. 

D, Ignex de Cajlro. 

V. Violante , jaa Aia. 

D. Branca , Princesa de Navarra. 



O Condeflavel de Portugal , Velho. 
Nuno da Cunha, e Egas Goelho. 
Aharo Gonfahes. - '". 

D. itini£'\ Fil,m do Princi ¥ 6 V - Pedr *-- 



A Scena Jfe figura em Coimbra , parte na quinta de Álvaro Gonfalves , e 
parte na de D. Ignez de Caílto, e Campo, 



!S2 



ACTO I. SCENA I. 

Sala : Sahe o Príncipe D. Pedro „ e o Conáeftavel. 



Pedro. 






A' de>Alvaro Gnnfalves o Palácio 
piza-mos , Condeftavel , revelai-me 
os fégredos fataes, que era vofíò rofto 
appareeem imagens de defgofto r 
era lagrimas banhado, me imploraríeis 
no monte donde me eftava divertindo 
oom a caça dasayes , e veados , 
que a efta quinta' quizeffe acompanhar-voâ 
pois a ambos nos convinha : o exercício 
dá caçada deixei , por agradar-.vos : 
o afteÃo que vos devo , a volte idade 
gafta em nobres acções, em que os vindouros 
emulos devem fer, o zelo , trato 
da minha educação pedem que grato 
por divida vos Veja , relatai-me 
dos voffos diflabores o motivo-: - 
I naõ me tenhais mais tempo penfativo. (tos, 
Cond, He, Príncipe, e Senhor, dos meus~defgof- 



foberano o motivo , a quçixa juíla 
vos. quizera expreflar , porém aíTufta 
o meu coração timido o refpeito 
da vofla Real prefença, e a queixa fica 
fuffòcada entre os fartos de meu .peito ; 
mas efta maõ que beijo , facro indulto 
feja para o perdaõ , fe permittirdes , 
que a boca exprefle o mal, que n*alma occuítcÇ 
hum mal, que. he produzido de difvelo , 
da obediência, da fé, do amor , do zelo : 
vós o fabeis, Senhor, por experiências 
da minha lealdade , e a narrativa t 

dos méritos , que callo , a ellas deixo. 

Ped. Mas de que m vos queixais ? 

Coni. Qe.vós me queixo. Ped. De mim? 

Cond. De. vós, que fendo o único allivio 
defta idade cançada , defdê o inílante 
que a fânta. Providencia a luz do dia 

A eia 



em vós, nos deo, Senhor, hum firme Athfante 
para amparo da Luza Monarquia , 
quereis hoje que o meu contentamento 
fe converta em funefto fentimento. 

Veàt Sem fujèiçaõ' faiai , voflòs defgoftos 
quero faber , amigo Condefíavel : 
a toda a attençaõ vos dou, porque refpsito. 
efle branco cabello venerável : 
feja jufta , ou injuria a vofla queixa , 
formada contra mim , ouvila quero 
da vofla mefma boca , e já a efpero. 

Conà. Animado da Real benevolência _ 
com q fempre me honrais , Príncipe inviclo, 
meu amado Senhor , já exercito 
na obfervancia da lei minha obediência 4 
trazer-vos a efla quinta foi preceito 
de voflb Régio Pai , pouco diftante 
de Coimbra o deixei. Ped. E a querefpeito, 
de Lisboa fahto ? Cond. A vir bufcar-vos : 
e neftas mefmas falas qUer falar-vos ; 
voífa jurada Efpoza 
o vem acompanhando, que faudoza 

| ua vofla auzencia .... Pfíi.Bafta,Condeftavei, 
, naõ vos porto ouvir mais , e» inevitável 
meu defgofto fera: da minha auzencia: 
a culpa tem' meu Pai , pois por violência 
me deflina huma Efpoza , que aborreço , 
e na5 receberei. Conà. Oh Ceos ! que excêífo 
vos cega de paixão ? Quereis , Senhor , 
abbreviar a vida a hum Pai cançado ? 
pouco vos falta já : fim , o pezado 
officio de Reinar, o clamor jufto 
do Povo , e da Gra ->deza , 
que as voflas núpcias pedem, a Prínceza , 
que teme o fer porvós repudiada , 
e quer da Real prometia o cumprimento , 
que lhe fupplica em lagrimas banhada .... 
• vofla auzencia da Corte , 
**os motivos feraõ da fua morte ; 
e ha de premittir defordens tantas 

• hum Principe benigno , f 

prudente, jufliceiro, fabio, e dingno 
do Império reger de todo o mundo ? ■ 
tremo fó de expreffalo , e me confundo : 
1 vede fe he jufta a queixa , que vos faç/» 



Tragedia 



de vós mefmo , Senhor ? ao meu Rei vejo 
por vofla cauza affliclo , e alliviar-lhe 
tantos golpes mortíferos dezejo ; 
defpozãi a Princeza , 
hum jubilo completo dais benigno 
ao Pai, a Pátria, aos Povos, á Grandeza-; l 
por efte dia faulto clamaõ todos : 
e vós para Reinar fortes nafcido , 
e deveis contentalos. Ped. Tenho-ouvido -z 
fe a Coroa comíigo me trouxera 
a violência das núpcias , naõ quizera 
o Império , e me fora mais fuave 
com elle demittir o pezo grave 
de huma força cruel ; de mais \ falemos 
claro, amigo, huma vez •, tantos extremos 
710 Povo, e em meu Pai , fe acazo nafcem 
por faitar fucceflaõ, já em Fernando 
hum Príncipe lhes dei, e por fim quando 
' efte pague o tributo humano , antes 
de cingir a Coroa , 
dois Fiadores tem em dois Infantes , 
meus ligitimos Filhos. Cond. Logo he certo, 
que fois de D. Ignez de Caftro , Efpozo. 

.Ped. Sim he. 

Cond, Oh Ceos ! que trance laflimozo 
receia o coração ! Pe$. Que vos afluíta ? 
naõ he minha Conforte acazo digna 
de cingir na cabeça a Coroa Ailgufia 
de hum Império geral ? Suas virtudes 
, a fazem benemérita : nas vea$ 
lhe giia Real Sangue 

de Hefpanha, e Portugal. Cond.Povém q ideas 
a hum fegredo , Senhor <, vos obrigarão , 
que vos pôde cauzar maior cuidado í 

Pííf/*Foi preciso o íilencio ^mas agora 
declarar-me convém: que eftou cazado 
faiba meu Pai embora o mefmo fangue 
o excitará a amar a mais formoza , 
de hum Filho fucceflor a. bella Efpoza. 

Cond. Queira o Ceo que aíOrn feja, e aifím ilio 
peço , 
mas temoque o repudio da Princeza 
de Navarra o obrigue a algum excerto , 
cuidai, como prudente, de applacalo 
das iras com que vem , falai-lhe terno. 

Sabi 



\ DtD.lgnez 

Sabe EJRei , e âi% para ãentvo. 

Rei. Nenhum entre comigo. Ped- Pai amado , 
neflà maõ Regia eftampo da obediência j 
puros íignaes a voííos pés proítrado. 

Rei. Príncipe, Ievantai-vos ; mal focego 
em meu peito a paixaõ. d parte. 

Ped. Vós -no Mondego ! 

Rei NaÕ tendes, Pedro, cauza de admirar-vos , 
já que me naõbufcáis, venho eu bufcar-vos: 
Lisboa para vós he odioza ? 
naõ vos agrada já da Corte o trato , 
porque-fíella preziítem Pai , e Efpoza : 
Coimbra, inda que neíla hum Filho ingrato 
habita, me fera fempre agradável. 

Ped. Eu de partida, eftava ...'. 

Rd. Condeftavel , 

retiraj-vos hum pouco Cofid. Muito temo 
a ira do Pai, do Filho o amante extremo ! V. 

Ped. Ai, adorada Ignez, hum Pai irado 
temo, meu bem, por ti : mas fó a morte 
poderá dezatar o laço forte , 
que os noflos coraçoens tem vinculado í 
a clauzura ao fegredo romper quero, ápart. 
Senhor , fe he culpa hum excéflò amante .... 
mas ai de mim, que dbfervo no féu femblante 
mais q hum Pai compaciVo, húm Rei fevero. 
Rei. Continuai , que amante êxcéfiò he eífe , 
que tanto vos perturba ,"e vos obriga 
a fugirdes de mim? Ped. Sorte inimiga ! 
comigo fe declara , e fe enfurece, d parte. 
Rei. Em amantesexceíTos engolfado 
eftais , quando por vós ha muito efpero 
para apertar o vinculo Sagrado , 
a que vos deftinei? Lembrar-vos quero % 

' que os que paraReinaV fomos nafeidós 
devemos attender ao bem commum , 
mais do que ao próprio bem, fe inadvertidos 
fazem o contrario , he defabono , 
da inteireza que pede o Régio Throno. 
Ped. À ÍKtèireza, Senhor, que vos inflamma 
a hum governo feliz, prudente , e jufto , 
conhece Portugal, e o mundo acclama : • 
mas naÓ reftringe tanto o Cetro Augufto. 
com os filhos a lèt da obediência f 



âe C afiro. ;. '•/ A 

que os obrigue a hum conforcío por violência,' 
Rei Os conforcios dos filhos dos Reinantes ' 
faõ eleiçoeus dos Pais ,'eftos vem antes 
que as Efpozas lhes peçaõ, em que eftado 
tem o feu Reino , bufeaõ a alliança , 
que melhor lhes convém para o tratado , 
de huma ferena paz , que a efperança 
' de hum Reinado feliz •, e menos erraõ 
do que os Filhos , aos quaes o amor. figura 
que he dilatado Império a formozura ; 
Rei, e Pai difeorri que me convinha 
cazar-vos em Navarra .: D Branca 
vem para fer de Portugal Rainha ; 
vós das núpcias fugis \ ella prudente 
aos meus olhos fe queixa , nâõ com vozes , 
pòre'm fim de feu pranto na corrente : 
como Filha a confolo , e lhe prometto 
da voffa maõ a pofie , acompanhada 
de hum verdadeiro, puro, e amante affecto; 
mas vós nem quereis ver defempenhada 
'a palavra Real , nem attendeis 
do Reino ao intereflê , 
erro que fopportar fó poderia 
o grande amor de Pai, que naõ merece 
do Filho a ingratidão , e a titannia ; 
voíTa Efpoza comigo veíft bufear-vps , 
naquèlla fala eftá, e quer falar-vos , 
ouvila com amor vos ác precizo , 
naõ queiraes, que oOmvofcomais me irrite: 
extinguio-fe a paciência , e naõ permitte , 
que vos faça outro avjzo .*• 
o refpeito de Pai , e autoridade 
da offendida , e fevera Mageftade : 
deixai-vos de hum extremo , que a loucura 
agradável yos faz , e advertido 
vede que muitas vezes já tem fido ' 
infaufta para o mundo a formozura ; _ 

• vede que inda entre as ruínas dura eferíto 
o exemplo de muifa fatal Scena , * 
que por Cava , Cleopatna , Porcia, e Elena, 
vio Grecia,Roma,Hefpanha 3 Troia.,e Egypto: 
as cadeias quebremos com que preza 

• tendes a liberdade , antes .que faça 
hum louco amor em miaera defgraça 

. funefta em Portugal outra belleza \ . 

Au - Fi- 



Filho , c Vaflaliò fois , cte vós efpero 
para meu defempenho o esforço digno , 
o confelho abraçai de hum Pai benigno, 
ou tremei do rigor de hum Eci fevero. Vat-fe. 
Ped. Oh c ueis ameaças ! femeffeito 
arrancar pertendeis 

de Ignez a bella imagem de meu peito 5 
naõ o confeguíreis, inda que affliâo 
veja vir fobre mim quantos eftragos 
vio.Roma,Hefpanha,Grecia,Troia, e Egipto, 
pois he mais bella a cauza deita pena , 
do que Percia , Cleópatra, Cava, e Elena , 
a reziítir da força ao cruel damno 
hum apertado vineulo me obriga , 
mas a Princeza vem , ouça a inimiga 
da minha mefma boca o defengano. 

Sabe D. Branca. 
Branc. Penfativo eftá , amor 

me faça aos teus olhos grata , 

e para mais agrada lo 

me infpire doces palavras.- d parte. 

Príncipe , Efpozo , e Senhor , 
Ped. Dai-me , belliíiima Infanta , 

a beijar efla maõ bella. 
Branc. Apartaí-vos, Ped. Efia graça 

me permetti. ' Branc. Naõ, naõdevo 

finezas involuntárias 

confentir , ' pois bem pondero •, 

que he politica efcuzada 

beijar Voífa Alteza a maõ , 

que aborrece. Ptd. Gentil Branoa , 

naõ he muito que a meus Lábios 
. negueis a maõ Soberana , 

julgando-me delinquente , 

talvez ignorando a cauza. 
Branc. Naõ ignoro, fei que fui 
«aos voífos olhos infauíta; 

qias quando hum amante fino 

em vos obter éfperava } 

hum Efpozo deshumano 

vejo , por*fer defgraçada. 
Ped. Os votfòs .merecimentos 

vos bufcaõ forte mais fauíla , 

e ás vezes íe ' Êncdta. a dita 



Tragedia 



j 



onde fe efpera a defgraça t 

quem fabe fe o Ceo , que tanto 

vos honrou de prendas tantas , 

para hum Efpozo mais digno 

as voflas virtudes guarda. 
Branc. Ai de mim ! que frio gello 

o coração me trafpaífa I 

efpozo mais digno ! logo 

fou por vós repudiada ? 

E viria a Portugal 

huma' Infanta de Navarra, 

para eíte defprezo ? Naõ •, 

fabio fois , vede que a inftancias 

de voííò Pai , meu Irmaõ 

a fer Conforte me manda ; 

delie vos queixai , fe acazo 

vos faõ as núpcias pezadas , 

e naõ de mim , que fó dei 

ao voífo infortúnio cauza , 

era fim , eu fou vofTa Rfpoza r 

e já voífo Pai me acclama 

Pririceza de Portugal , 

te fui de Navarra Infanta. 
Ped. lífo , naô vivendo Ignez , 

a quem meu peito idolatra. & f>ãrtei 

Senhora , por pouco tempo 

vos fopplico attençaõ , faia 

já pela voz- o fegredo , ' . 

que guardo õcculto em minha alma. 

'Sentai-vos. Branc. Inda que ouvir 

mais arfrontas julgo inflama , 

refinar quero o veneno 

por ver fe depreda mata. d partf* 

Dizei. Ped. Ouça Voffa Alteza ? 

Cazei , Senhora , em Hefpanha 

primeira vez cp' a bella 

Infanta D. Confiança , - 

que pelas fuás virtudes 

em melhor vida defcança. 

Quando a fazer-me ditozo 

veio minha Efpoza amada , 

trouxe em fua companhia 
' a Portugal huma Dama , 

a quem o feu Régio fangue 

pelas veias circulava ; 

eira , 



\ LeD. 

) éfía , que da natureza" 
goza perfeiçoens maia raras , 
Dona Ignez de Caftro he , 
a quem Portugal , e Hefpanha 
por difíinclivo de bella 
nomeaõ Colo de garça. 
Vofià Alteza me.- perdoe , 
«me tanto chegue a exaltala 
na fua prezença , fendo 
de iguaes prendas adornada *, 

, nunca imaginei , que morta 
a minha Conforte cara , 
confeguilfe outra belleza 
de meu coração a entrada •, 
mas amor, que impio , e foherbo 
receia a minha conflancia , . 
arma o arco , e novas rlexas 
contra o meu peito difpara , 
como quem de huma izençaõ 

" per tende tomar vingança : 
huma tarde , que em Lisboa 
pelo jardim paffeava^ 
de Palácio , tarde em que 
mais bella Aurora rozada 
amanheceo aos meus olhos , 
para que quando fe acaba 
o dia mais bellos raios 
illumina(?em minh3 alma : 
vi -a Dona Ignez taõ bella , 
que a huma fonte encofiadâ 
/parecia para adorno 3 ' 
que era de alabaítro eftatua .: 
muit2S vezes tinha vifío 
a fua belleza rara : 
mas nunca me pareceo 
taõ gentil , taõ- engraçada, 
como efta tarde, em que amor 
cuiz dar principio á vingança ; 
vendo eftive alguns inftantes 
por entre as .floridas ramas , 
e fem poder fupportar 
o incêndio , que me abraza , i. 
chego a falar-lhe , e apenas 
me avifta , fobrefaltada , 
muda a keUa^c& do rofto, , 



Ignez de Cajlro. 



e quer fugir- me apreflâda i " 
rogo-lhe , que ■ por piedade 
me attenda , a expreííãõ me eftranha 
com femblante uò modeíto , 
que refpeito me inculcava , 
e algum tempo ficámos , 
eu mudo , e ella perturbada : 
té que ; rompendo o íilencio , 
proferi algumas palavras , 
que para ferem amantes 
o coração mas ditava : 
reprehendeo-me afperaraente , 
fevera , •confuza ,. e irada , 
que he foberba a honeftidade , 
fe cré que a expreíTaÕ a aggrava j 
quer profeguir a fugida -, 
e lhe digo , âh meu bem , pára , 
fe o Ceo te.<;reou taõ bella , 
naÕ feias comigo ingrata , ( 
fe qual dizeis fou , rpfponde-; 
naõ permítta a forte infaufia 9 
que fazendo-me o Ceo bella , 
eu própria horrenda me faça, . 
Soceguei-a , aííèverando , 
que quem Efpoza a buícava , 
jiaÕ era para a fazer 
horrenda , nem defgraçada. 
Efta fuave expreffaõ 
me ouvio Dona Ignez mais grata , 
c fez com que o juramento : 
revalidaífe a palavra : - / 

meu Pai , que amor criminozo 
julga fer nolfa conflancia , 
em fim para, feparar-nos 
bufear Voffa Alteza manda , 
fem me dar hUm Jeve indicio 
deftas núpcias a ju fiadas ; 
erro que fendo fó delle , 
Voffa A! teza he quem o paga , 
mas como difereta , e jufta f 
fois , efpero , excelfa Infanta , 
que naÕ fulmineis rigores- 
contra minha Efpoza amada , \ 
pois. fruftrais a tiranrita , 
mallogranio as efperanças , 



V 



6 Tt 

vede que defla uniaõ ," 
com tanto a mor apertada ] 
nos deo o Ceo dois Infantes - 
' taõ gentis , que nos feus roítos 
adoro a Mãi retratada : 
queremo-nos taô conformes , 
■ que até as mefmas Serranas 
os noifos puros amores 
contaõ com íincera graças 
e huma. pequena fonte, 
para donde manhans carias 
me vai efperar Ignez , 
com todos os da Comarca r 
a Fonte das faudades , 
. por lizengear-nos , chamaõ". 
Voífa Alteza me perdoe 
a narração , que aggravala 
naÕ foi meu : intento , fim , 
com íinceridade exaéra , 
quando enganada a julguei t . 
foi jufto defenganalla , 
franqueando-lhe as virtudes 
campo para aeçóens bizarras : 
e fe em Portugal naõ tem 
Efpozo , muitos Monarcas 
eftimaráõ efta dita , 
que vos parece difgraça : 
e porque me efpera Ignez , 
e julgará de amor falta 
a minha auzencia , ignorando , 
que teve taõ jufta cauza . 
dai-me licença , Senhora , 
que a ver minha Epoza parta ,- 
pois he bem que affifta o corpo 
. na parte onde exifte a alma. Vd-fc. 
Bfnncf Oh-Ceos ! como ainda refpiro , ' 
. efcuflando injurias tantas ; 
mas he que contra o ingrato 
refpiro aSr&rbas vinganças: 
temerário ! e fe atreveo ' 
á minha viíla , que audácia ! 
a dizer , que por Ignez 
a minha maõ defprezava ! 
pois morra Ignez , que por dia 
c meu decoro fe ultraja , 



agedia 

e fe huma mulher zeloza 

fo comíigo ,fe compara , 

ferei contra efta inimiga 

impia , fera , deshumana , 

a quem naõ abrandem rogos ,. 

nem lagrimas derramadas : 

vingativo , ê rigorozo 

EIRei juftiça me faça, 

cortando de hum golpe hum laço , 

que he dos meus defprezos cauza. Vai-fe. 

S.C ENA II. 

Jardim com ajjentos : Sàhs Bona Ignex , e Do- 
na Violante. 
Viol. Y> Ellifllma Senhora, eítais cançata ? 
Ign -O Cançacíâ eftou, minha Violante amada; 
Viol. Vós nunca focegais , trift^s cuidados 
vos daõ femprá as paixfies cruéis de amores., 
toda a manhã andaftes pelos prados 
matando as aves , e pizando flores , 
mas como ao voflb Príncipe naõ viftes s 
vos recolheis , Senhora , 
mais pérolas vertendo do que Aurora. 
Ign: Ai , Violante , naõ fei que imagens triítes 
me infundem taõ fatal melancolia, 
que^nafcer já naõvejo a luz do.dja 
alegre para mim , como naquellas 
ferenas madrugadas , em que vendo 
pelo Cep efconderem-fe as eftrellas 
os meus tenros amores me levavaõ' 
as luzes , que os meus olhos procuravaõ : 
- e quando alli chegava o meu Efpazo 
me parecia o dia mais formozo *, 
já naõ fei , naõ , o que he viver contente : 
pelas magens do rio caminhando 
os mefmos panos dou , mas taõ differehté 
da que fui : que de njim própria me efpaato ; 
parece que em mortal defaííocego 
intenta o coração desfeito em pranto 
augnientar as correntes do Mondego : 
á fonte chego , em fim , e já aviltando 
o meu Príncipe ao longe , que aprefíando 
os paflbs vem , por ver-me de mais perto 
fuavizando hum pouco o meu defgoíto. 
fó por naõ affiigtfo > porque o amo , 

ale* 



De D. Ignez de GafWo. 



- 



''alegria fingindo no meu rofto , 
as lagrimas lhe efcondo , que derramo : 
ouço lhe as expreífões ternas , e amantes 
mas já me na6 parecem como d'antes 
na que He mefmo Htio taõ fuaves 
ao fom da fonte a muíica das"aves •, 
nem já góítade ver o ameno prado > 
de mui Yiftozas flores matizado : 
o canto das Paftoras me aborrece ~ 
e quanto me alegrava me intrefteee. 

yiol. Da voflã profijndifíima triíteza 
naõ comprehendo o motivo : 
acazo naõ vos ama fua Alteza 
já com aquelle amor puro , e exceífívo , 
com que antes vos amava? 

Ign. Minha Violante , 

naõ ha mudança- em feu amor confiante. 

Viol. E vós naõ lhe quereis da mefma forte ! 

Ign. Extinguir meu amor fó pôde a morte. 

Viol. Se vos ama , e fe a mais a voflò Efpozo 
com reciproco extremo , 
naõ fei que vos aííufta. 

Ign. Temo , e tremo 

do rigor de hum Reinante poderozo : 

depois que em Portugal entrou a Infante 

para fer do meu Príncipe Conforte 

naõ foeega meu peito hum fó inítante ; 

contra mim conjurada vejo a forte 

mil imagens iuneítas me apparecem' , 

vejo empunhar contra meu peito afríéto 

por huma cruel maõ eípada aguda , 

fobrefalto-me , bramo , choro , e grito 

pelo meu caro Efpozo , que me acuda : 

defta affiicçaõ intenfa combatida 

os fentidcs recobro , e entaõ me finto 

»*um confuzo , e penozo laberinto , 

como fe fora certo 

o eíirago fatal em que defperto. Sènta-fe. 

Viol. Perdoai-me , Senhora , eu vos exponho 
tudo que me fuccede, quando fonho : 
íe he coiza tjifte, e acordo de repente • • 
meu coração refpira 
e íieo foeega ia , e mui contente 
Vendo o fonho funefto fer mentira : 
fe era dita , entaõ íieo magoada 



porque foi para mim dita fonhada : 
de fúnebres imagens mentirozas, 
apáttai , apartai volfo cnidado , 
pois fois feliz com voffo Efpozo amado, 

Ign. Feliz fui , e feria , fe naõviffe , 

que humá Infanta , com titulo de Efpoza , 
para inimiga he muito poderoza \ 
ella pôde fer cauza dos meus damnos ! 
e Pedro, inda naõ vem ? Viol. Minha Senhora, 
tudo vos dá cuidado : elle fe affirge 
por vos ouvir gemer a toda a hora ; 
e por naõ efeutar tantos fufpiros 

^ foi divertir-fe á caça^ os feus retiros 
naõ vos afffijaÕ , que elle virá logo. 
elle muito vos ama .... mas que dita : d p/trt; 
adormeceo minha ama •, o Ceo permitia 
a tantas afflicçoens dar-lhe focego ! 
vou bufear-lhe os filhinhos , bellãSLflores ? " 
effa flor me guardai, que vos entrego ; 
mas oh , que muito me alegro , Sua Alteza 
para aqui apreííado fe encaminha. 

Sabe D. Pedro. 
Píá.VioIante ? Fio/.Senhor. Ped.Aonáe a minha 

querida Efpoza eftá? Viol. Neffe alegrete , 

agora adormeceo , vede que bella ! 

com as flores matiza hum ramalhete. 
Ped. Gentil Ignez... F/o/.Compadecei-vos delia, 

naõ a acordeis , Senhor , que he impiedade. 
Ped, Meu excecivo amor , minha íaudadfr 

naõ poflo mitigar. 
Ign. Detem-te , efpera ... Sonhando. 

Ped. Sonhando eftá Jgnez. Viol. Que fatal íida^ 
Ign.. Naõ me mates tiranno •, Sonhando* 

Pedro, meu bem , Efpozo. Ped. Minha vida.' 
Ign. Oh de huma confuzaõ bárbaro effeúo. 
'Ped. Muito a teu fufto devo pois te trouxe 

a defeançar em meu rendido peito. 
Ign Ceos! que feliz encontro ? Ped.ldolo amado, 

teus alentos recobra valeroza , 

ainda que eftais com o fufto- mais fofmoza : 

que fonhavas, Ignez ? Ig».Que hum coroade 

Leaõ enfurecido me matava , 

e dos braços os filhos me arrancava. 
yiol. Triítç Senhora : Saiba Voífa Alteza , 

que 



8 



que naõ pode viver a Tua Efpoza 
com tantas conftreoens : nella naõ goza 
hum inflante de alivio : 
apenas VoíTa Alteza fe retira , 
aftiige-fe , confome-íe , e fufoira : 
fe por acazo dorme alguma hora , 
fe lhe Hgura em fonhos mui funeftos , 
que hfi ímpio a quer matar, defperta, e chora. 

Ped. Que fúnebres perfagios, que moleítos 
para mim também íaõ : d farte. 

Ign. Caro Conforte , 

de fembíante mudais a minha forte , 
temeis que feja infaufta , em que conluie 
a voífa confuzaõ , que o peito fente ? 

Ved. Quando te vejo , Ignez , aírlicla, e trifte , 
fora falta de amor viver contente , 
eh naõ queiras, meu bem,meu doce encanto, 
eclipfar de teu roíto as luzes bellas 
com as ternas correntes de teu pranto : 
effas gentis belliffímas eftrellas , 
que fempre para mim foraÕ benignas , 
e que fempre por mim foraõ amadas , 
nem pofiò ver em rios tranformadas , • 
nem devem fer annuncios de ruinas : 
recobra , Ignez amada , a alegria , 
que algum tempo brilhava em teu fembíante, 
naõ temas a huma vaga fantazia , 
tendo em mim defenfor, Efpozo, e amante : 
vê, pois, que muitas vezes nos figura 
a mentiroza idea , 
ou a polfe do bem , que fe procura , 
ou efTeito do mal , que fe receia •, 
fente-fe, em fim, como fe certo folfe , 

'"e depois fe examina fingimento 
o efTeito do mal , do bem a pode. 

tgit. Senhor , fe de taõ afpero tormento 
me quereis procurar o lenitivo , 
naõ me deixeis , faltando-me a fe' pura , 
que guardar me juraíles excecivo. 

Ped. Defconfias de mim ? Ign. A formozura 
da Infcmta de Navarra ... Ped. Eu a aborreço. 

Ign. Mas voíTo Pai a adora com excedo ? 

Ped. Sob p vc-fio Conforte. Ign. Elle o ignora. 

Ped. Talvez o faiba }á : eu m.efiro agora 
:í af.eveíci gue defpozado , 



Tragedia 

meu bem,comtígo efíava. Ign.Oh duro fadoV 
e e!la em Coimbra eilá ? Ped. Sim, q receias? 

Ign, Sinto gelar-íe o fangue pelas veias ! 
e veio voíío Pai ? Ped. Com ella vúo» r 

Ign. Oh mizera de mim ; o meu receio 
fe vai verificando rigorozo : 
naõ me defam pareis, amado Efpozo. 

Ped. Defampatar-vos èu , Efpoza minha ! 
naõ me aggraveis T fuppondo tal mudança * 
fe a vida me afiíítir tendes a efperança , 
que haveis de fer de Portugal Rainha. 

Ign. Naõ he do Thronoa Regia autoridade- 
quem me incitou a dar-vos arobicioza 
em meu amor império , e liberdade : 
pofiua quem quizer a Monarquia , 
que á fua dignidade naõ afpiro , 
fó dezejo gozar nefte retiro 

, em doce paz a voífa companhia •, 
aqui me a^radaõ mais vofia; finezas , 
que lá da Corte os fauftos, e grandezas? 
vofibs filhos aqui irei criando .... 

Viol. Guardas Reaes , Senhores , vem entrando 
pela porta da quinta.. Ped. Ah,q he meu Pai ! 

Ign. Onde me efconderei ? Ped. ídolo amado, 
naõ temas damnos , tendo-me a teu lado. 

Ign. Oh deixai me fugir do meu diftino* 

Ped. Naõ fujas, fala ao Rei, que elle he benigno,' 
naõ te retires : parto a recebelo. Vai-fe. 

Ign. Vai bufcar-me os meus filhos , doce frufta 
de meus funeftos , e amorozos laços, 
que talvez que naõ tenha outro minuto 
para lhe dar os últimos abraços. 

Viol. Vede como vos vem bufcar contentes. 



/ 



Sabem os dou Infantes , D. Affonfo , e D. Diniz» 

Ign. Vinde, vinde meus filhos innocentes , 
amadas prendas , que a minha alma adora , 
abraçai-me, abraçai-me. Aff. De que chora 
minha querida Mãi ? Ign. A voíla idade 
he mui terna , meu filho , naõ.fabe ainda 
ter.de huma infaufta Mãtjufta faudade. 

Aff. Eu o que he fentimento naõ ignpro , 
quando chorar vos, vejo também choro. 

Ign. Ai Affonfo , e D.niz, caras delicias, 
de meus ternos amores : o ímpio faflo 

V0§ 



V • DeD.Ignet 

^vos quer roubar >as maternaes caricias. 
Aff; Naõ chore, minha Mãi, que nos magoa. 
Ign. Com voflb' Avó ireis para Lisboa. 
Aff, E naõ ha de ir também ? Ign Oh íbrtedura! 

irei filhos ; parahu ma fepultnra. 
Viol. Vós nos quereis matar com o inceíTante 

vaticínio do eftrago. 
Ign. Delie me aviza o-coraqaõ prefago .... 

ah'^ mifera de mim", que vem o Infante! 
Viol: Aniniai-vos, Senhora, ah tal fadiga! 
Ign. Cxno poflo , fe vejo , oh rigor fero ! 

pira fentenciar-me hum Juiz fevero^, 

e para me aceuzar huma inimiga ? 
Aff. Minha queri la Mái, que gente he eíta ? 
Ign. Veio com vofiò Avó. Aff. Eu quero- vê-lo, 

para a maÕ lhe beijar, e conhece-lo. 
Ign; Que poderá fugir! forte funefta! Efconde-fe. 

Sabe EÉRei D.Affbnfo, e Príncipe D. Pedro, a In- 
fanta D Branca, Aharo Gonj alves ^. e 
Egas Cotlho j-i? Soldados. 

fítt.Maisouvir-vosnaõ^oflo. Pcd.Qne torâieto! 
que foisi meu Pai, benigna, o mundo entenda. 

Rei. Baila , Pedro , já pela vofla emenda . 
fe canqoú de ef erar o fofFrimento. < ! i - ' 

Igw.Triíte de mim,EI Rei fe moftra iradol d \afbS 

Ped. Tanto rigor comigo , Pai ama ío ? 

"Rei. Hum abfoluto filho naõ merece , 
os agra los do Pai , nem os conhece. 

Ig».(NaÕ me animo a falar-lhe,oh mortal fuflo!) 

Eg. Senhora, focegai q o Rei he jufto Pura Branc. 

Ah. Pela vofla razaõ acudir deve/ d mejma. 

Branc. Nem a falar o infeliz fe atreve : 

— naõ fique a minha fama indecoroza , . 
principie a vingança em fua Efpoza.a part. 
: Rá.Em fim, Príncipe, he tempo dique a infanta 
veja por mim cumprida a Real- promeflã ,' 
dando-lhe a vofla maõ : o mundo todo « 
neftas núpcias precisas fe in-terefla , '■ 
vede quehe amanhã o ultimo dia,, 
que vos aífigno para erFeétuaTlas, i t$ 
e fe obftaculo houver a embaraqa-las, 
fevero o -cortarei. Ped Que tirannia ! d p. 

Branc Sufpenfo eítá o ingrato. d carte. 

Ign. Oh cruel tranze 1 



Ceo benigno, animai-nie nefte lance. 

Sabe Ignez, 
Ign. ConwVafíãUa humilde, e reverente 
; beijo a benigna maõ da Mageílade. 
Rtil Como he bella, agradável, e prudente , 

Teu ettado me obriga a ter piedade, d part. 
Branc. Naõ. lhe dá attençao : fó de vingar 

o meu defprezo' trata. d parte. 

Reí.NunCa a meus olhos pareceo taõ grata, d p, 
• Erguei- vos D. Ignez de Ca (Iro , erguei- vos. 
Ign. Donde poderei- ter lugar mais digno , 

que as plantas do meu Rei,meu Rei benigno, 

porquem fupplieoao Ceo enternecida, 

que lhe dilate coimo império a vida. 
Rei.' Levantai -vos. ' ' 'com ternura. 

Ign. De mim fè Compadece. '■ d fartei 

Rei. Que modeftd faiar ! qus honeítidade 1 d p. 
Ped, Refpira coração, que fe enternece 

meu Pai por ver a Ignez fabia, e amoroza.rt fé 
Branc El Rei a a t tende muito':, de zelloza 

mal reprimo o. tfuror>! < $ í ; d parte. 
. ■ ■■• ■ .';..' 

•'- Sahsm ! os Infantes, i 
Ign Dinife , Aftbnfo , ■ ■■■'' ■ - 

reverente^ chegai , e obzequiozos 
beijai aqnella maõ. Real, quepóde 
■ .fazer os infelices venturozos. 
Aff- Vem Diniz : dê-nos Vofla Mageílade 
a beijar a m3Õ Regia. Rei. Que belleza ! p - 
> faõ retratos da Mãi na gentileza *, 
converteo-íe o rigor em doce agrado : d p. 
como he o vofio nome? Aff. D, Affonfo. 
voíio Neto , e Creadb. 
Rei. Sabeis que fois meu Neto ? Aff. Certamete: 
difle-me minha Mãi, e eu contente 
'fiquei' de conhecer-vos. Ign. Com razaÕ, 
pois tendas hum Avó mui generozo. 
Rei. E mui difereta Mãi : oh Ceo piedozo,, 

, encobrir já. naõ poflb os meus afleílos! d ' p. 

Branc. Que examino , ai de mim; que injuria he 

. efta ? . " d parte. 

Carina- El Rei vem os feus Netos , 

. quando, a minha vingança me prorefla ? . d p» 

Rei. Vamos, infanta: D. Ignez, a Deos/ 

B Iin. 



-ro ^ Tragedia 

Ign. Profperem vofTa vida os yuftos Ceos , 

c a VoíFa Alteza, a quem humilde peço, 

que fe digne k ... ■ < 
Branc. A attençaÕ vos agradeço. Com ironia,.. 
Ign. Diffimuiar naõ pôde a ira acerba ? d p. 
Branc. Que fingida humildade ! d p * 

Ign. Que foberba ! Ped. Muialtiva,eorgulhpza 

a Infanta dçzattende a minha Efpoza , 

faltando-lhe ao refpeíto y 

mas he difcreta , Ignez , tolerar fabe 

as paixoens feras de hum zelozo peito, d p. 
JBranc. Ou vinde, ou me irei. Vara o Rei. 
Rei. Vamos , Senhora. . , í - > 
Branc. Naõ me pareceo nunca , que á prezença 

me trouxeflês da minha contendora , 
-para teílemunhar a minha offenfav 
Rei. Outros foraõ,, Infanta,- os meus projeclos ,\ 

mas que quereis que faça ? 
Branc. Que d ef culpeis a Nora, e mais os Netos :. 

eu fó' lamentarei minha deígraça. 
Rei. Oh dura obrigação da Mageftade ! 

muito eufta a moftrar-mè Juiz inteiro ! •: . 

pois em cazo taõ grave , e laftimozo , 

fe huma parte me incita a fer piedozo , 

a outra a fer-me obriga jufticeiro \\ 
* c parece , que nefta amarga fcena , 

o delinquente eu fou, pois finto a pena. d p. 
Branc. Eftá fufpenfo. - d p. 

Rei. Vamos. Eg. Senhor., vede , 

que embaraço taõ forte vos impede 

de todo o Reino a paz. #;fy para o Rei. 
Rei. Vejo , e mè alTufto ! 

venceo a compaixão ao meu dizignio : dp, 

difeorrtremos no que for mais juflo. 
Alv. Para focego obter vofio dominio 

convém eftecluar-fe o cazamento , 

da Infanta de Navarra ! d f. para o Rei, 
Rei. Que tormento , , 

bafta de confternar-me. 
Ped. Que faláraõ de mim ? Triftes cuidados ! 

eftes meus inimigos disfarçados. 
Branc. Já naõ poíio fofírer o mal que occulto. dp. 

Senhor , inda naõ vamos ? 
Rei. Sim , Infanta. Partindo. 

Ign. Permiui-me outra vm- o Régio iadul» 



de beijar-vos a maõ , Aflfonfo inviclo , ( 
meu Rei,e meu Senhor. Rei.Oh lance affliéroí 

Jgn. A eftes adora veis,innocentes , 
qúevofios Netos faõ, e Filhos meus , 
a ma6 lhe dai também Rei. Como contentes 
fe chegaõ para mim ? Filhos, a Deos. 

Aff. A Deos querido Avó. 

Rd, Quereis comigo irpara a Cidade ? 

Aff. Naõ Senhor , noite Mãi em nos naõ vendo 9 
chora dejfaudade. -Rei. Mui bem os educais. 

Ign., A vós^ Senhor, meus filhos recommendo , . 
fe pela Mãi vos forem odiozos, 
fazei-os pelo Pai que tem ditozos , 
recordai-vos de mim compadecido. 

Rei. Efconder quero o pranto enternecido t 

bella infeliz Ignez , oh permittiífe 
.'oGeo, que Portugal nunca te viife! Vai-fei 

Branc. Morrendo vou,nem pofib em tal defgQfto, 
ver da minha rival o gentil rofto. Vai-fe com 
Ah aro , e Egas. 

Red. Ignez querida 

Ign. Efpozo idolatrado®..,... 

f^iiQue acompanhe a meu Pai mãda a obedien- 

Igw.Já.me quereis deixar: oh dura auzécia! (cia, 

Píi.Comvofco, meu bem, fica o meu cuidado* 

Ign. Çofnvofco vai aquella faudade , 

que alcanço áminhadór , quando- vos vejo : 
meu bem , torna reis logo? 

Red. O meu dezejo 

apreífará os voos da faudade : 
amados Filhos meus da alma pedaços ^ 
ficai com volío Mãi , e dei-nie os braços» 

Aff. De-nos a fua maõ. 

Red, Tomai , Infantes.- 
Ignez. 

Ign. Efpozo meu ? 

Ped, Prenda querida ? 

Ign. , Funefta auzencia ! 

Ped. Trifte defpedida I 

Ambos. A hum coração fiel , oh juftos Ceos í 
muito çuíta a dizer a Deos, a Deos. Vaõ-fe. 



^SCENA 



De D, Ignez de Cafiroí. 



m 



nfi "T iÉÊÉfb ifcniir 



A C T O li. SC ENA I. 

€amara no Palácio de Aharo Gonfahes : Sahe efte , Egas Coelho , e a Infanta, 



Branc. T\ Odeis ir dizei a EIRei .- . 

wr* que eftou refoluta : baftemí' \ 
-*- de injurias ; para Navarra 

hei de partir efla tarde. 
Egas-. VoíTa Alteza fe modere , 

com o .que^ Sua Mageftade ' f 

por nós lhe manda intimar. 
Branc. A jr.inha affronta he mui grande y 

e das promeíTas 'àè EIRei 

já poOb dezenganar-me , 

pois nunca teraõ efFéito , 

que me feja favorável. 
, 'Ah. Se El Rei compaíEvo hoje 

naÕ pode de 4gnez •vingar-fe ^ 

talvez que á manha fevero 

feixe os olhos a piedade. 
IBranc. As lagrimas da fingida 
' faô eílimulos' baftantes r , 

para lhos fazer abrir ; 

e fe eiras Itíes na6 bafta rem ^ 

nas graças dos ternos filhos , 

que ao Avó foraõ agradáveis', 

tem gratos íntereeííores 

para a juftiça applacarern. 

as. EIRei he fabio , e vencer * 

quer com affabilidade , 

-que de- D. Ignez de Caftro ' ! 

o Principe fe fepáre r 

fem que fe queixe a clemência , 

nem a juftiça fe aggrave. 
fôranc. Inutilmente procura 

dezatar hum laço amante , 

que liga a dois coraqoens t r ' 

onde ha, huma fó vontade. 
iAh). Os horrores do càftigo 

efFeitos contrários fazem : 

nas feparaçoens das viílas 

pôde fer que o tempo apagufl '■'. 



as chammas , "que amor acende 

,nâ prezença dos femblantes. 
Branc. NaÕ quero que a experiência 

faqa dupplicar ultrajes : 

Já o meu refpei to' altivo 

tem fupportado baftantes , 

•e fera indecorozo 

tolerar mais fem vingar-me* r ^ 
Egas. O cumprimento^ das nupcíàS' 

fera vingança baftante. 
Branc, Como ? Se o Príncipe eftava 

cazado com Ignez antes 

que eu yiefle a Portugal 

por minha infelicidade? 

Elle mo diíTe a mim própria # 

para mais dezengahar-me 
Alv. Senhora , EIRei vos affirma , 

que o Principe, qucò Çeo guarde , 

eííe fingido embaraço 

bufcou para defculpár-fe. 
Branc. Mais me oíFende , e na6 he bem a 

que em Portugal me dilate : 

quem dèfculpar-fe procura 

das núpcias, dá indícios gravâfr 

de que a Êfpoza lhe a&oríece % 

ou intenta efpozar-íe "í " 

e ta5 indifcreta , oh Ceos 1 

eu feria , que acceitaíTe 

hura Hymineo conítrarigidoi 

caõ , que fora fuj'eitar-me 

aos preceitos de conforte 

fem os agrados de amante:. 

de mais , precizaõ na5 tinha ] 

o Principe de ènganar-me : 

com ella eftá recebido. 
• iJEgas. Pois fe acazo for verdade , 
- a vida de Dona Ignez 

çftá em perigo grande 

U Ak% 



l± , Tragedia 

Alv. Infeliz hé a ufiiâÕ 

fe-ha de dividila o tangue , 

mas a Real palavra o manda , 

e o pedem voíTos ultrajes. 
Branc. Que dizeis ! Eu me horrorizo 

delfe intento abominável: i 

vim a fer Efpoza ,' e naõ 

a matar quem. o era antes. 

do que eu. Alv Porém ... Bmsc.Tèrihb ouvi 



Egas. Já do feu quarto ElRei fahe. 
Alv. Julgo que vem procúrar-vos. f 
Branc. Para ínais atormentar-me. , t 



C do. 



■y. 



■ 



Sabe EIReu 

Rei. Infanta , adorada Filha 
como fabia defculpai-me 
.a demora de bufcar-vos. 

Branc. Benigno intentais honrar-me. 

Rei. VoíTos méritos fubiimes 
faõ os eftimuios" graves. r' 
que em meu peito ..produzirão. 
afFefros inevitáveis' .;, . , 

e tanto * Filha,, que julgo , 
que a eíte amor inexplicável 
naõ pôde .igualar aqtièlfe , 
que da natureza naTce. * 'í- .'. 

"Branc. Voifas expr-gcoéns faõ filhas 
da jiiira. iJBcendade : ' '< ■*"}- 
conheceis que." vofío Filho •"•'",/ 
dizer finezas naõ fabe , 
e quereis fupprir-lhe ás faltas 
mofírarido-vos. Pai , e amante. 

Rei- O tempb ,' ouVôf>rigacjaõ- ' 
o enfmará. fyj&Bfo Perdoaí-me^r 
mudai , Senhor',, de dílcurfo s 
falemos ria', .brevidade 
da minha partida ..Rei. Oh Ceos l 
quereis , Senhora ., deixar : me ? 

Branc Rei invicTo , exeelfo AfTonfo, ' 

/ permetti que vos relate. 

< a razão das minhas queixas,' 
e neítes breves instantes . 
fale fo a .elhmacao , 
e ós mais' affefrps fe calíem , 
que he fuLiil de amor o^aggrayo , " 



v 



onde ha do decoro ultraje : 
para Efpoza de: D. Pedro 
com meu IrmaÕ me ajuftaftes , 
o qual em execução 
pos logo a minha viagem : 
paliada., em fim , a tormenta , 
para outra fentir mais grave , 
entrei no .famozo Tejo , jr :»- 

que. banha. a illuftre Cidade 
de Lisboa - 9 e em fuás praias 
defembá>quei huma tarde : 
fahifteis a .reçeber-me 
com pompas , e fap,ítos grandes ^ 
que togo funeftos ,luto,s 
foraõ para- os meus pezares : 
pois quando por vofío Filho 
efperava , para dar-lhe 
com a maõ de Efpoza hum 
coração terno ,' e amante , . i Vlí . 
fube , que mais duces laços ?jg ' 
o prendiaõ.em outra s parte j ; 
e fem o dezariar ,; • ,, ;.•-,-. 
ao menos a curiofidade . ' • Í(J 
de ir do Mondego a, Lisboa , j 
para ver o meu femblante , 
vós de Lisboa ao. Mondego . 
me trouxeres a íjalar-lhe : 
extraordinários exçéfips, 
bem contra a civilidade; 
naõ fei "o qúe lhe dilíeítes ; 
mas bem poífo aífegurar-me , 
que em defender a juftiça , 
Crieis da minha' .parte •, 
falou-me Pedro , os empenhos , 
que tive , em poucos inftantes , . 
que o attendi , naõ he bem , 
que a s minha boca' relate : 
bafta-me , fendo quem fou , 
que os faiba , os finta j e ps calle 5 
digo fó , que temerário ..... 
vamos , Senhor , a "..diante ,. 1 
e perdoai- me que os zelios. 
chegaõ a precepitar-me , 
e o coraqaõ aos lábios 
quer fubir para «jueixar-fe : 



- Be D. Igmz 

> pairadas, varias .-injurias, 
que fó em meu pèi to cabem , 
á quinta aonde Ignez exifte 
fui , porque vós o ordenaítes , 
para voltar mais affhéra 
do que me fentia d'antes : 
pois cuílaõ mais as ofíenfas 
quando em prezença. fe fazem 
de quem com defprezo alheio 
fica vaidoza J e triunfante, 
A pezar da minha affronta 
pôde Ignez vangioriar-fe , 
fe quando vos teme irado, 
. entai) vos encontra affavel : ft , 

proferindo em feu favor , i ■ ■ 

muitas expreçoens fuaves • ; • ■ i 

mas por nao fer teftemunha 
outra vez, dos meus ultrajes,. 
a volío Filho, dizei , 4 

que acertou em empregar fe 
em quem de pqlTui lo. he digna : , 
porém que attento repare, 
' que nem todos como eu- foffrem 
os defprezos fem vingar- fe : 
com minha auzencia as occultas 
núpcias ao Reino declare , 
que augmentâio prazer de hum bem. . 
. fajoer .que todos o fabem : 
vós , Senhor , fe compaixão 
tendes defta, adverljdade^ t 

naõ me ] embaraceis a auzencia , 
porque fera obrigar- me l - . ' 

-a que _ 4 furioza liniite,- r , , . /■ •' 

minha injuria com | meu langue í 
o reurar-me he prudência , 
que deveis;, Senhor , louyar-me , 
e inda culpando-me eííou 
_ rezoluta j o , Ceã -, vos guarde, ■_. Vâi-fp. 
Rei. Efperai: a demora-la. ..,-■■•-.., 

parti , Àfvaro Gonfalves. 
Aiv. Eu r parto, e vós. evitai • ■ <■» 
hum obílaculo taõ grande 
ao voífo defcanço , e noflb. Vai-fe. 

Rei. Ceos l como poífo moftrarrme 
julUceko > e compaíiivç' 



âe C afiro. - 13 

ao mefmo tempo ?■ Pe riu a d em , 
que preciza huma vingança 
as judas queixas da Infanta j 
mas as lagrimas de Ignez 
faõ mui dignas de piedade. 
Egas. Senhor , voíTa compaixão 
-fera a hum Reino eítranhavel , 
que as -núpcias de Sua Alteza 
pede com inftancias grandes. 
Rei. O amor , que a ignez tem , 
o violenta a que me falte 
ao preceito , e ignoro o como 
deíla uniaõ fepare. 
Egas. Nem vivendo D. Ignez 
Sfcníeguireis que fe aparte 
delia o Príncipe. Rei. Oh Ceos ! logo 
devo o fangue derramar-lhe ? 
Egas. Mais que huma vida , Senhor , 

he ó foccego importante 
' de hum Reino. Rei. Trifte de mim ! 
-Egas. O, Príncipe vem. Rei. Falar- lhe 
devo .qual Rei ofFendido , 
e nao como Pai affavel ; 
pois fe o naõ move a brandura , 
trema da feveridade ! 
retirai-vos a effe quarto , 
Egas , a té, que eu. vos chame. 
Egas. A execução deltas núpcias . 

pede toda a brevidade. Vai-je. 

ka^ -■ 

1 «- -Sa.be o Príncipe. 
Ped. Senhor?' Rei. Que me quereis ? 
Peâ. Oh Ceos ! que. afpedlo ! 
Rei. Faiai, que me quereis, Filho indifereto ? 
Ped. Suffoça-me a expreçaõ o Voifc enfáXo. : 
Rei. Notável obediência 3 efiais lembrado 
de que vos intimei , que ao novo dia 
haveis de fer de D.i -Branca Efpozo ? 
Pt d. Se naõ poiíò ..Senhor .... Rei Toda a profia 
inútil vos fera. Poâ.' £ rigorozo 
quereis obrar comigo huma violência? 
oncie o arTeclo de Pai , onde a clemência 
de humano me eícondeis quê em voílo u)fto 
coberto de fatal feveri iasTS? 
1'çves. finaes naõ vejo de piedade ?' 

Rei, 



V4 



4 ,j ..--'^ 

Z?a. Vós fois cauza do vofíb , emérTdefgoílo , 
é quando com o Rei he o Filho ingrato 
pede da Mageftade a' inteireza y 
que de Pai me naõ vença^o dócil trato . 
e qus as Leis poflaõ mais que a natureza í 
as Leis fabeis quaes faõ ? Em obfervalas , 
cuidai como Variai lo , o amor paterno 
naõ me ha de violentar a moderalas- 
comvofco de algum modo , 
porque no feu vigor me empenho todo. 
Ped. Vede, Senhor, que excélfo taÕ confiante 

á mefma natureza he repugnante. 
Rei. Se vós vos efqueceis , por ferdes Filho r 
de que VaíTalIo fois, eu nefte excéflò , 
porque fou Rei de que foú Pai me efque^t. 
Ped. Pois q quereis de mim ? Quereis matar-me? 
A' voífa Lei minha obediência humilho , 
que inda que me tenhais por máo Vaflallo , 
nunca me efquecerei de que fòu Filho. 
Quem poderá das iras foccegalo , 
para que contra Ignez ... mifera Eípoza , 
naõ volte a vingança ímpia, e rigoroza. d p« 
Hei. Filho infeliz, enternecido o vejo , 
e menos -me naõ finto , mais que a força , 
os affeclos de Pai moftrar dezejo? 
Mas defta compaixão me maravilho , 
ceda o ingrato já , pois naõ he jufto , •' 
que eu faíte,fendo Rei, porq eíle he filho, a p". 
Pedro, qualquer demora , maior fufto 
tos pode motivar , tende entendido , 
que naõ pofiò ceder, nem méhe devido. 
Ped. Ponderai-me , Senhor , no mefmo eftado 
dai-me tiranna morte , . 
que eu a recebo a voíTos pés proftrado. 
Porem naõ me obrigueis a fer conforte , 
que nunca hei de cumprir vollo preceito. 
Rti. Temerário , aílim faltas ao refpeito , 
que fe deve guar !ar ao Soberano ! 
pelas Sagradas L&h que ao mundo regem ? 
quem viver poderia entre os humanos 
Te deitas o rigor naõ fupprimiífe 
a propenfaõ cia culpa aos malfeitores , 
homecídas, perveríbs , e traidores •, 
e ainda aíím , oh Ceos ! entre os viventes 
paia os Pais Filhos ha desobediente:» - x 



■ige.Va 

até hoje,, entendi que do cenforcio" 
fugias por viver 4 tua vontade : 
agora verifico que outras núpcias 
te prenderão a muito a liberdade í 
á Infanta tu mefmo o-dedaraftes , 
mas que fora , entendi , falfo pretexto < 
que para dilíuadi-la procuraftes ; 
porque capacitar-me naõ podia , 
que chegaífe , offendendo o meu decoro, 
a taõ cega paixão tua euzadia j 
permitta o jufto Ceo que feja engano : 
mas fe verdade for .... mizera Ignez l 
precizo fe me faz Teu fatal damnó. 

Ped. Ah , Senhor , que dizeis? Que crueldade 
vos move a numa tragedia rigoroza , 
que o mundo efiranhará ? Sendo verdade , 
que eu a fiz, porque a adoro, minha Efpoza % > 
-que culpa tinha a minha innocente ! 
fe foi delicio, eu fou o delinquente. 

Rei. Defla dezobedíencía temerária 

foi culpa huma belleza extraordinária ;'# 
como primeira cauza do delicio 
a belleza feextinga. Ped Oh impia eftrella f 
logo culpaes o Ceo porque a fez bella ? 

Rei. Que proferes ! reprime efla loucura ? 
para perturbadora' do focego- 
o Ceo naõ a adornou de formosura ; 
em fim, quero q morra. Ped. Outra efperaríqá 
naõ ha já p.ira mim ? Rei. Quero que mona* 

Ped. Funefta pôde fer- ena vingança. 

Rei. Sim , funeftàTerá a ti, ea ellâ. 

Ped. Mudai de fentimento. Rei NaÕ,na5 mudo* 

Ped. Vede que o fangue, a vida . e por fim, tuefo 
eu mefmo arrifearei por defende-la.' • 

Rei Naõ o cõfeguirás. Ped.Hum Filho perderejifc 

Rei. Kum inimigo. Ped. Inimigo ferei» 

Rei. Que temerário ! 

o fulminante raio do caítígo 
em Ignez principie •, e tu , ingrato , 
cauza da fua morte , e teu defgofto t 
naõ verás mais de hum pai alegre o rortov 

Ped. Pai j ou Rei , adverti que fem focego 
finto a luz da razaõ efeurecida , 
e naõ me lembro nefta trifte fcena , 
mais que o livrar de huma innocente a vida, 



ú 



\ JD.e D. Tgjiez 

y) efeacazõ.... Rei. Ameaças-nie, foberbo ? 
/ Tcd. O que faço naõ fei , mal taõ acerbo 
quem poderá fqffrer , fem que a impaciência 
ascadêas lhe quebre Ha obediência ; 
fe naõ tomai , Senhor } melhor confelhõ. 
Rei. Já he muito foffrer 5 Egas Coelho. 

Sabe Egas Coelho, _ 

JJg-Que me ordenais ? Rei Que o Príncipe leveis 
prezo para o CaPello da Ciciade 
vizinha , e delle conta me dareis. - 

Ped. Naõ vos movea abrandar eiía impiedade 
o fangue paternal, o fer humano ? 

R.ei. A humanidade, o fangue, o amor paterno, 
tu me tens ofFendido como infano. 

Ped Deites niefmos afTèctos efquecido 
me vereis Pai, fe a D. Jgnez, que adoro , 
a vida naõ falvais compadecido. 
Equal fera.. Rd Levai o. Ped Embravecida., 

Egas. Vamos , 6enhor. 

Ped. Deixa-me em mal taõ forte. 

Rei. Que pertendes de mim? 

Ped. De Ignez a vida. 

Rei, E eu quero, infiel, fle Ignez a morte.Vfli-fé, 

Ped. 'Oh tiranna fentença •, fado injufto í 
onde eftou ? Que farei , quem me aconcelha 
em lance taõ cruel ? Eg. Príncipe Augufto, 
irsis o naõ irriteis , a grande excedo 
pôde chegar a força do cíiftigo. 
Vede,Senhor... Ped BaífajEgas^em conheço 
a tiranna intenção defte inimigo. áçart. 
Em fira , vou prezo ? 

Egas. Aflim ElRei ordena ?- 
E como fou Vaífallo reverente , 
a ordem cumprir devo diligente. 

Ped. Sois vós meu carcereiro ? 

Egas. Ao meu cuidado 

a guarda fia EIReí de VofTa Alteza , 
como leal que fou illuíire, e honrado. 

Ped. Creio , que naõ fentis, que efla emprçza 
meu Pai vos confiaíle , eu q aíTegúro : 
trifte o dia/ne fof, talvez que nafça_ 
a manhã para vós com efcuridade. 

Egas. Nos lances da ventura , ou da defgraça , 
fçr& de Portuguez :- minha lealdadç , 



âe C ti firo. i< 

em dia alegre, ou trí fie. ' Ped. Grande zelqj 
obedeça- fé 20 Rei , fazei que prompto 
fe ponha o coche , vamos ao Caílello, 

Egas. Obedeço -> Senhor. Vai-fe* 

Ptd. Ígnea querida , 

de quem me fiarei pá* a avizar-te 
do perigo em que deixo a tua vida ! 
mas eu mefmo, meu bem, para livrar- te, ^ 
entre as fombras da noite irei bufcar-te , 
v quebrando eífa prizaÕ , para que vejas , 
Ignez idolattada , que me obrigo, 
ou a falvar-te , ou a morrer contigo. yai-Jí. 

S C E N A II. 

Camjio : Sabe D. Ignez , 'e D. Violanfç» 
V'vú. Q E naõ quereis encontrar-vos 
O com a Infanta , recolhei-vos 

para a quinta , antes que venha 

da caça, Ign. Encontra-la temoj 

mas aftiicta , e faudcza 

pelo meu Príncipe efpero , 

que talvez que com féu Pai 

viefle á caça. ! Viol. Os Monteíros 

caminhão para efte íitio. 
Ign. Oh , fe viefTe D. Pedro ! 
Viol. Eftais muito faudoza ? 
Ign. SaÕ para meu trifte peito 

eternidades de penas 

os inftantes que o naõ vejo. 
Viol. Já chega a Guarda Real : 

quereis que, nos retiremos? 
Ign Ceos ! naõ vem o meu Efpozo ? 
Viol. Falando com hum Cavalheiro 

vem a Infanta de Na-varra : 

vamos , que efíá já muito perto,. 
Ign. Já em mún repararia , 

e retirar- me naõ devo i 

pois naõ quero que me tenha 

por inciviU Viol. Sofrrimento 

podeis ter pata falar 

a quem foberba ho;e mefmo 

vos dezattendeo á vifta 

de ElRei? Ign. Âh Violante , que?» 

portar-me cora el Ia attenta , 

talvez que os" agrades ternos- 



m . - Tr 

era parte, abrandar conâgaÕ 

a sfpereza de . feu génio: 

quero implorar-fhe- pieiade, 

dobrando humilde" os^ joelhos , 

por ver fe de huma inimiga , 

huma - interceíibra obtenho. 
yiol. Se El Rei voflb Sogro hoje 

vos falou dócil , e attento. , 

que receais? Ign. Ah, Violante. I 

que mal difcorres •, ; receio , \ 
. que as rogativas de Branca 
. o façaõ mudar de affecTo. 
VM- A fer D. Ignez de Caílro , 

naõ a rogava , he .bem certo. 
Ign. E eu porque fou D. Ignez. 

de Caílro , a rogo , eíle execiío 

he muito precizo a quem 

na flor de-íeus ânuos tenros 

occultamente fe cáza 

com quem fuccede n*um Reino „ 

tendo muitos inimigos, 

que lhe podem íer funeftos. 
Viol. Vós. , Senhora , fois mui fabia , 

e difcorreis com acerto , 

mas ella chega. Ign Ai de mim ! 

naõ fei que -defgraça temo , 

que ao coração de afluftado 

he pequena esfera o peito. 

Sahe a Infanta , Álvaro Gonfahes , e SolfàAos. 
Branc. Com o que me aífegurais. 

me demorareis mais tempo , 

naõ que ás minhas pertençoens 

efpere profpero eífeito , 

íim , para dobrar motivos 

aos juílos refeutimentos. 
Alv. Senhora , EIRei vos afirma , 

que do Príncipe D. Pedro 

fereis á manhã Efpoza. 
Branc, Já em prometias naõ creio. 
Alv. Mas alli eftá D. Ignez.. 
Branc. Naõ lhe pofíò ver o afpeclo ! " 

temo que eíia -Garça altiva, 

com feus rangidos afTtclos.. , 

fobre as mi<tt|às tfperanças 



remonte os voos foberbos. 
Alv. Em quem muito fe remonta 
i he mui perigozo o defpenfio. 
Branc. /Vamos , que naõ pofíò vê-la. ■• 
Vid. Ficaíle perplexa ? Ign Eu chego : 
Voíía Alteza me permitta , 
que com reverente obzequio 
lhe beije eífa niaõ Áugufta. Ajoelha. 
Branc. Furores, diííimulemos. 
Levantai-vos , D. Ignez ; 
porque fora dezacerto 
ver proftrada ás minhas plantas 
quem tem lugar em meu peito ; 
vós í nefte prado ? Ign. Senhor* , 
a immenfa dita de ver vos , 
logro , por me demorar 
neíles retiros amenos., 
aoiiie da voífa attençaÕ 
favor diítinclo recebo. 
Branc Delle fois muito credora t 

com volfa.ivifta me alegro. 
Viol. Bellamente. : até aqui 

, naõ vaõ raáos os comprimentos. d pari. 
Branc. Trifleza moftra no roílo : , 
já faberá que eftá prezo 
o Príncipe , com disfarce 
individua-lo querov 
D. Ignez , pois refpecluoza i 
me bufcais , também dezejo 
agradar- vos , que naõ fou 
ingrata para quem devo 
finezas ; em voífo roítro 
muito diílabor percebo , 
quizera faber a cauza , 
para bufcar-lhe o remédio, 
pois voíTos doces agrados 
merecem grandes extremos. 
Ign Se tingida , oh Ceos ! naõ foífe , 
eu recobrara o foccego 
perdido, á p. Branc. Que me expre/leií 
voífas penas naõ mereço ?. > . , 
Igfi. Quem pôde , oh- excelia Infanta , ! 
pór aos meus cuidados termos , • 
melhor, que a vofía" virtude , 
e o voíio poder Supremo , 

• Fazen- 



( 



) fazendo de huma infeliz 

huma ditoza. Branc. Comprehendo 

a máxima aftucioza , 

mas delia me naÕ convenho : d p&rt 

como poffo dominar 

a vofla fortuna ? Ign. Tremo , 

Senhora , de o proferir. 
Branc. He efcuzado o receio ; 

falai-me fem fujeiçaõ: 

que pertendeis, de mim ? Ign. Quero 

hum "esforço , que dará 

ás voflàs glorias augmento , 

e conhecerá o mundo 

taõ illuftre acçaõ , Cabendo , 

que vos venceis a vos mefma , 

fendo da piedade exemplo : 

naõ intenteis feparar , T 

(com lagrimas vo-lo peço ) 

a dois coraçoens , que amor 

unio em vinculo eftreito : 

benigna féis .... Branc. Dona Ignez , 

da vofla expreflaõ me oífendo , 

nem fei como valor tendes- 

para expreflãr vonos erros. 
Ign. Erros , Senhora , julgais. ..... 

Branc. Bafta já. Ign. Oh Ceos Supremos ! 

íimples fui , pois me enganarão 

feus agrados lizonjeiros. 
Branc. NaÕ fei como a ira reprimo ! 
Ah. Alguma defordem temo ! . 
Viol O principio foi mui doce , 

vai faindo agro o meio . . . ~ 

e fe acazo naõ me engano , 

o fim ha de fer azedo. 
Branc. O Príncipe em adorar-vos 

andou , Ignez , pouco attento , 

he precizo defpozar-fe , 

e pelo mando paterno 

o eftá comigo. Ign Ai trifte ! 
Branc. Por vofla culpa hoje prezo, 

o mandou fea. Pai. Ign. Ceos 
" indamais efte tormento! 
Branc. Porém á manhã fahirá 3 

para que applauda efte Reino 

o noflb feliz conforcio, 



De D. Ignez de Caflro. 

que dezeja 



ir 



d parte, 
d parte. 



d parte. 



que ouço J 



ha muito tempo. 
Ign. Já he muita tolerância -, 
naõ baflaõ tantos defprezos? 
Com zelos, níe quer matar ?■ 
pois acabe o foffrimento , , 
que he milagroza a prudência, 
onde ha ludíbrios , e zelos, 
Branc. Extingui vofla efperança , 
refleclindo com acerto --.,.,• 
na irrçmenfa defigualdade i 
dos noflòs merecimentos. 
Ign. Senhora , fabeis quem fou ? 
Branc. Porque mo proguntais ? 
Ign. Bem creio , 

que o naõ fabeis, pois altiva \ 
-de mim fazeis pouco apreço , 
quando eu , fendo quem fou > 
humilhada vos refpeito. 
Branc. Que fois D. Ignez de Caftro,, 
collo de Garça , conheço , 
eu fou de Navarra Infanta , 
e huma a outra excedemos , 
fe vós a mim na belleza , 
eu a vós no nafcimento. 
Ign. Infanta , bem me parece , 
que me tratais com -defprezo, . . 
porque inda naõ conheceis 
o fangue de que procedo : 
e aífím mudo. o difcurfo , 
nerAiuma á outra excedemos^' 
vóft me igulais' na belleza , \ 
eu á vós no nafcimento. 
Branc. Affim me falais ? 
Ign. Aflim 

a minha razão defendo. 
Branc. D. Ignez ,. detende os Voos , 
e tornai ao voflò centro. 
Sirva-vos de correçaõ , 
de avizo , e de claro exemplo , 
que huma Garça branca , filha 
da ligeireza do vento , 
voou taõ alto efta tarde, 
que parecer, que de peiiío . . . 
pertendia examinar 
os refplaudores de Febo : 
C 



d parti. 



:Ú~ 



.>? 



is '— tm 

canqalo dê ver © féu 

remontado atrevimento 

a defpedaçou nas garras. 

hum Xarifaíte. foberbo , 

caftigo de o competir 

nos voos -altos : entendo» 

que me percebeis : de grande 

altura he grande o defpenho. 
Ah. Muito a Infanta fe declara, . aparte. 
Ign. Senhora , com o refpeito y 
' que á vqíTa Soberania 

fe deve, pedira vos quero, 

que naõ me aniquileis tanto:. . 

com apparentes exemplos : 

€u fou D. Ignez de Caftro , 

Collo de Garça- , epitheto 

com que me adulou Hefpanha- 

defde os meus annos primeiros : 

D. Pedro de Caftro , a quem 

pelos triunfos immenfos r 

por íhviclo Hetóe da guerra 

nomeou o mundo inteiro , 

me deo o fer, e ahumalrms.,, 

que occupou o Real aflento 

de Caftella : meus Irmãos 

fe trata.Õ no mefmo Reino 

com a diftincçaõ de Infantes;, 

e por fim ., de muitos Régios 

predeceíTores fe illuftra 

meu diftinfto nafcimento t » 

Ce vó.s de Navarra Infanta; 

ibis , eu já me reconheço 

Princeza de Portugal : 

pois do Príncipe D. Pedro 

fou legitima Conforte : 

vede fe o meu cazamento, 

poderá fer perferido ,. 

fendo-o comigo , e permeir(v 
« «le que fe ajuftaífe o vpíTo ,, 

fem o fea confentimentp. 

Neftas expreífpens , Senhora , 

ao meu Efpozo defendo-, . 

pois também »he fuâ, a. cauzít, 
- ® vos refpondera, o> mefmo.: i 

tom. de. cpotai que he. clíg. 



a 

quem vos" fala de. meu peito r \ 

aonde exifte , e fuppofto , 

que ambos fomos hum fó , devo , 

;por defeza natural , 

quando com tanto defprezo 

falais como a D. Ignez y 

refponder como D. Pedro. 
Alv. Mui foberba lhe refponde* d \>m$ .. 

Branc. Que temerária ! eíquecei-vos 

de que era Garça a. que ha pouco 

fe defpenhou ? Ign. Té me lembra 

de dizeres ,. que era branca , 

e tinha os voos foberbos. 
Branc. Atreveis-vos a dizer-me 

equívocos defattentos ? 
Ign. Crede, Infanta, que a falar-vos 

com altivez me violento ; 

porém vós me provocais 

fevéra , defconheeendo 

em mim a porção do voffoi 

fangue , que nas veias tenho : 

ou já porque o ignorais , 

ou porque he o voflb intento; ; . - 

abater a huma infeliz , 

que naõ tem em todo o Reino , 

para defender-lhe a vida 

contra inimigos fevéros , 

hiais que o amor de feu Efpozo ,.; 

que pouco- a defende prezo : i 

alguma efperançaj tive , 

.era vós, Senhora , mas 'vejo,, 

que naõ tem as defvalídas - 

nas, poderozas regreffo : 

por vos naõ. fer: mais odioza , 

àa voíTa vifta; me .auaentoij 

o Ceo vos guarde, e me dè_ 

conftançia em tantos tormentos ,, 

vamos , querida , Violante , 

por ver fe em meus filhos tenros» 

alcanço algum Unitivo- 

aos martírios que. padeço.. Vdi'fi.. 

Yiol. Eftes agrados fingidos 

paraõ fempre em deftemperos;. Vai-fei;' 

Branc. Álvaro GonfalVses ,, eito 

he.. a: efgerança que tenho .*> 

Aht. 



**'. 



'Ah. NaÕ defanimeis , Senhora, 
gue ficareis muito cedo 
vingada de numa foberba. 

Branc. Em vingança naõ falemos 
fó pôde fer minha auzcncia 
de tantos damnos remédio. 
Vamos , vamos , que de EIRei 
defpedir-me outra vez quero* , 
antes que á vifta do ingrato 
me acabem meus cruéis zelos. 

r Mv. Temo que zelos , e amor , 
iBJtivem lanços funeftos. 



BeD.Igtièz 4eC afiro. 



Vai-fe. 
Vai-fe. 



S C E N A" III. 

Salas com luzes : Sabe D. Ignex, , <? D. Violante. 
Viol. T? U fempre difle , Senhora , 
m-j que as voflas expreffoens doces 

haviaõ de concluir-fe 

em lagrimas , e clamores. - 

Naõ fabeís que a Infanta 

tem o coração' de bronze ? 

intentafteis abranda-lo , 

e ficou mais duro , e forte. 
Ign. Naõ cri que a minha humildade 

taõ injuriada fofíe. 
Viol. Aífím he ^ mas vós também 

lhas difleftes de bom lote. 
Ign. A paixaÕ me provocou : 

e agora com mais furores 

fevera concorrerá 

para a minha infaufta forte : 

prezo o meu Efpozo ! ai trifte ! 

quem já defender me pôde , 

fe os que ao lado de EIRei andaõ" , 

«orno inimigos ferozes 

contra a minha vida faô* 

tirannos accuzadores ! 
Viol. Efperai , que pálios finto. 
Ign. Ai de mim i Viol. Naõ fe alvoroce. 
Igw.Vê quem he. Fíõ/.Eu vou, Senhora. Vai-fe. 

Sabe o Príncipe. 
Ign. Que vejo ? Ped. Vamos , conforte. 
Ign. Príncipe, Efpoz©..,. Ped. Meu bem , • 
vamo-nos , naõ te demores. 



Ign. Que cuidado pode havei: 

depois de cuidados fortes ,. 

que em teu grande coraçaS 

produza tantos temores? 
Ped. O de falvar tua vida,, 

que grande perigo corre. 
Ign. Pois a; minha vida acabe , 

e ceifem tantos rigores. 
Ped. Iffo-naõ, da tua vida 

fe alenta a rainha , e naõ obre 

taõ feroz a crueldade , 

que extinga, as duas de hum golpe j 

vede que qijaiquer demora \ 

fer muito funefta pôde*, 

meu Pai me mandou prender ^ 

e te ameça com a morte ; 

aqui eflou para Iivrar-te r 

naõ queiras que fe roa-logrera 

eftes propícios inftantes 

á nofla vida. Ign, E para ondô 

me quereis, Senhor., levar? • . ^. 

Ped. Para onde nos guie a forte ; 

para onde com menos fufto 

tua companhia logre : 
entre as incultas montanhas t 
affifiindo entre Pairares , 
Cem fauftos, pompas , grandezas , 
cercado de agrefles montes 5 
gozaremos de huma vida » 
innocente , ainda que pobre. 
Ign. Inda que outros , Pedro amado t 
faÕ meus fentimentos nobres , 
nas finezas competir 
com teus fentimentos podem; 
naõ he jufto que eu coníinta , 
em taõ infauftas defordens , 
"•que percas, porque me adoras, 
de huma Coroa os explendores : 
fica em paz , que eu irei , 
mas he razaõ que me outorgues 
a licença de levar 
meus filhos , para que donde 
me conduzir o deftino 
tenha com quem me eonfole : 
com elles, Senhor, irei 

C ii para 



IO 

para os mais efcuros bofques , 
e companheira das feras , 
com mais lagrimas , que vozes y 
pedirei aos Ceos vingança , 
( pois naõ a encontro nos homens. ) 
contra ímpio que fepara 
dois coraçoen. taõ conformes : 
eu , e os tenros, innocentes , 
em inceftantes clamores , 
como oifãos , e fem abrigo, v 
feraÕ exemplo ao Orbe 
das ruinas a que empoem ,. 
quem tendo contraria a forte y 
fem prever inconvenientes , 
fe caza louca de amores,:., 
áííim evitas., meu. bem^ 
que por deshumana ordem 
de teu Pai , da minha vida 
o débil fio fe corte,. 
Guarda-me neíte retiro 
pura fé , naõ te defpozes 
com aquella ingrata , aquelía > 
que as minhas defgraças move r 
w efla preci^za. maõ , 

que me deftes em laços doces , 
. he fempre minha , e naõ quero , 
que tiranna maõ a toque ', 
e fe algum. dia, Senhor,, 
tiveres do Reino a poflè , 
te fupplico , que do notfò 
confiante amor te recordes : 
torna-me para. os teus braços ,. 
onde , querido Conforte , 
me mate o contentamento , 
pois a faudade naõ pode. 
Ped. Enxuga , Ignez bel la ,, os rios , 
que deites teus olhos correm ,.. 
naõ me mates de afflicçaõ , 
bafla matar-me de amores : 
naõ fe perca, ^como inútil, 
efte tempo , foge , foge. 
deíle funefto lugar ,. 
onde te. ameaça o golpe*. 
Ign.. E tu ?: Ped.. Eu. ,. infaparaveL 
- fcrei de ti.. Ign, Os traidores. . 



Tragedia 

que na face de teu Pai 

noíTo amor accuzaõ , podem .,.. 
- Ped. Nada temas , Tgnez , quando 

o meu valor te foccorre : 

e eíles , que nos criminaÕ x 

como inimigos ferozes ^ 

talvez que algum diafejaõ 

viéKmas dos meus rigores. 

Apreffa-te., Ltnjando-a pela mm. 
Ign. E os nofTos Filhos } 
Ped. Meu Pai conta delles tome ^ 

pois nefta apreffada fuga 

f«rvem de embaraço forte. 
Ign. Ah , eu fem elles naõ parto. 
. Affonfo , Diniz. Chamando-os mm impacien- 
Ped. Expor-me ( cia* 

queres a maior defgraça ? 
Ign. Filhos ? . Ped. Se te naõ rezolves. • 

vê .... mas quem para éíia falia, 

com ligeiros pálios corre! 

Sabe o Condefiavel. 

Cond. Sufpenda Volía Alteza... 

Ped. Condeftavel y ' - - 

que quereis ? 

Ign. Oh defgraça inevitável ! 

Ped. A que vindes ? Fala. Perco a paciência» 

Cond. Nunca , inviclo Senhor , foi taÕ penoza 
para a minha lealdade a obediência.. 

Ped. Que pei tendes de mim ? 

ígn. Oh rigoroza , 
e deshumana eftrella ! 

Cond. Do meu zello 

a meu pezar , confia a Mageítade 
o ir reconduzir- vos ao Caftello 
para onde vos mandou , adverfidade ,. 
* que na minha alma finto, porque temo , 
que naõ faltando ao Rei , e â minha fama 
o diozo vos feja quem vos ama.. 

Ped. Ide> 

Cond. Senhor, a- vofibs pés me humilho^ Ajoelhai 
com o refpeito que devo , mas lembrai-vos 
de que eu. Vafiallo fou ", e vós fois .filho : 
e quebrando hum preceito ,. quehe Sagrado,, 
vós. livre ficareis , e eu, culpado* 

Pd'.. 



I> D. Ignez 

Ped. Â minha reztfíencia vos defculpa ? 
" Ide-vos. 

Cond. Naõ façais ira is "grave a culpa , ; ; 
vede que voífo Pai , apenas foube , 
que da prizaõ fahi fieis, muito irado , 
contra vós fe queixou ; do meu cuidado,, 
e de Álvaro Gonfalves ,. ria a empreza 
, de vos prenler , qualquer defeza. 
inútil vós fèrâ : Arvaro fica . 
efta quinta de guardas - rodeando- ,.- , 
para a fuga evitar-vos ,. e até creio 
que voífo Pai em nofio alcance veio. 
Ped. Meu Pai me quer perder com tanto excéflbj. 
perdido ficarei , já naõ conheço ,. 
em taõ forte impiedade , 
de Filho , ou de Vaifal-lo a lealdade.. 
Conâ. Senhor .... Ign. Conforte amado ....... 

Ped. Peixa a hum infeliz dezefperado. 
Cond. e Ign. Príncipe .... 

Ped. Foge : vem Ignez querida. Tira a efpada^ 

e quer lenjala, 
Cond. Ah, que vos perde huma paixaÕ funefta; 
Ped. Á vida he huma íó , e perdida efta , 
naõ ha mais que perder ,. percafe a vida : 
Ignez, anda comigo. Ign'.. Naõ. Ped. Duvidas. 
Ign. Ora ouve- me primeiro , 

e leva-me depois, Senhor, comtigo ,. 
para onde quizerés : verdadeiro 
naõ he o coração , que naõ procurai 
evitar do objecto a defventura , 
arrifcando-fe affinv. Ped. Poisdeíía forte r 
, porque fiel te- fou , quero da morte 
livrar-te em taõ. penozo labyrinto.. 
jgn Mas eu porque te adoro o naõ coníinto. 
Ped. Logo queres morrer ? oh rigor fero ! 
Ign. Porque tu naõ te arrifques morrer quero.. 
Quem poderá livrar- nos 
da vingança de hum Rei . que proeurar-nos 
manda com gente armada ? O precipício ,. 
ou ficando, ou fugindo fempre he certo :. 
e fe para applacaJo hum facrifieio 
he baflante ,. e naõ ha outra efperança-,. 
banhe o meu fangue as ar2s da vingança j, 
. porque te livres o morrer. naõ finto.. 
J?d,. Mas cu porque te adoro o naõ cuníintOy 



âe C afiro, i í 

naõ me repliques mais, aprefla o paffo. 

Cond. Senhor , que me perdeis. 

Ped. Qoalquer que intente ■ 

fervir-me para a fuga de embaraço , 
a vida perderá como iniolente. 

Sabe ElRet. / 
Rei. Eu te embaraço a fuga , temerário , 
- cumpre delia palavra o duro efíeito ; 
a quem re deo o fer trafpaíía o peito, 
Ped. Oh Ceos ! que infaufto dia !: 
Ign. Oh defgraçada ! 

Rei. No fangue de teu Pai banha eíía efpada , 
tenha em ti Portugal hum,parrecida *, 
qual teve Roma em Nero matrecida. / 
quem te fegura o braço-", deshumano ? ' 
Ped. Ali, meu Pai, ..defgraçado', e naõ tiranno 
me poderá, fazer a iníqua eítrella :..> 
ahi itens , Senhor-, a minha efpada 
proítràda aos voílos pés , e eu. com ella. Puem 
a efpada. no. tbao. > 

Rei. Lèvai-o , Condeítavel , ao Ca irei lo , 
e as guardas lhe dobrai. Ign. Aífonfo inviclo, 
contra mim fó voltai o rigor fero , - v 
pois a cauza fó eu fou do feu delido :. 
a voífos pés .... 
Rti, Ouvir-te mais naõ quero. Voltando. 

Ign. Aos meus olhos. negais, oh impiedade ! 
voífo. rolb Senhor ,, neíte mudança- 
efeonder-me intentais vofia piedade, 
ou. naõ quereis que trema da vingança *, 
olhai para o meu rofto, e delle o pranto, 
neíle peito magnânimo prefira 
a piedade a vingança ,, o affeclo a ira. 
Ped. Attendei-a benigno. 
Rti Oh Ceos !. conítancia. d parte. 

voíTus loucos excéííos tem chegado 
a extinguir-me de todo a tolerância : 
fe tuaós-meus preceitos quebrantando ,, 
tu , foberba , a huma Infanta injuriando. 
Ped. E^as Coelho "Senhor, me deo licença,, 

. e talvez que me aecuze dle aleivozo.. 
Rei. Licença nao, deixou o paflo livre , 
porque temeo às iras de hum furiozo. 
Ign. Com foberbas palavras ,, que a alma ferem , 

a.quem^ 
/ 



22 Tr 

.a. quem teve cí>mo eu o nafcimemo ,. 
a infanta me infultou-, e naófopporta 
injurias cie honra, e fangue© fofTrimento ' 
huma. parte, Senhor, do- fangue Régio , 
que pelas minhas veias fe reparte , 
he voflb , e como todo fe offendia , 
attendendo a vós mefmo., fim devia , 
defaggravar , Senhor , a vollà parte. 

Rei. E deve ella foffrer que lhe demores 
as núpcias de hum Efpozo prometido ? 

Ign. NeíTe cazo feus erros faõ maiores : ' 
dia qúer-me uzurpar o que já he meu % 
eu defendo o que o Ceo .me- concerte©. 

Rei. Tenho ouvido; tremei deífe itidífcrero 
amor,com que a hfi Reinante offendeis tanto, 
que (ó vos fsi dizer, de Pai o afftclo , 
nem as ternas correntes do teu pranto 
já mais me abrandarão , e fe a-ioucura 
hum laco vos teceo com minha offeafa y 
por minha Lei o eíconda a fepultura., 

Ped. Ah meu Pai.... Ign. Meu Senhor.... 

Rei. Deixai-me , ínfanos. 

Cond. Vede , meu Rei, que eifa paixaõ intenfa 



agmia 

adianta a ruína aos voíTos annos : 

de afrlído aífim vos ver tremo , e me afluíto \ 

e já que tanto amais ao voíío Povo 

em vós lhe confervai hum Rei taõ jufto. 

Rei. O Príncipe levai aonde ordeno , 

e cercada eíta quinta fique. Ign. Oh Ceos ! 
cõdemnais-raea morrer?£eí.Sím tecõdemno. 

Ped.Pois eu a defendo. Cond NaÕ o irriteis íríais. 

Ped. Que bárbaro rigor ! que injufta lei 
fazem, taõ defgracadas , 
as que os Príncipes ama6. 

Rei. Aquellas que Vereis executadas. 

Ped, NaÕ verei, ou fe a tanto arigor forte 
da juftiqa chegar enfurecido , 
em brava fera , de homem convertido , 
proteílo de vingar a fua morte. 

Rei. Vai-te infiel. Cond. Oh trance iaftimozo! 

Ped. A Deos,querida Ignez. Ign. A Deos, Efpozo. 

Cond. Oh naa-logrado Efpozo ? 

Ign. e Ped. Eu me iinto morrer. 

Cond.Que trifte Scena.Rei\Eu fentéceio,e tremo. 

Tod. Mas oh dura fenrença , infaufta Seena. 

Vau-f. 



A C T O "III. SC E N k : í. 

S alia no Palácio de D. Ignez: SaheElRei, Álvaro Gonfahes , Egas Coelho , e Guardas. 



Rei. "IV "T A6 me cegue a paixaõ, pelo confe- 
1\ lho 

-*■ fe profira de Ignez hoje a fentenqa: 
retirai-vos, Soldados ; a julgardes 
cazo taõ ponderável a inteireza 
vos chama da juftiqa , Sacro movei , 
que as Monarquias, mais que os Reisimrjeraj 
paixoens particulares , e lizonjas 
dos peitos demetti , para que feja 
a fentença de D. Ignez de Caítro 
Fiiha fó do difeurfo , e da prudência :, 
eu vos quero informar de circunflancias , 
que naõ fois fabedores , e naõ tenha 
a ignorância em vós , como Juizes , 
lugar entre o caíligo , e a defeza ; 



fabei que eu , e a Rainha minha Efpoza $ 
em quem virtudes refpeitaes immenfas , 
temos bufeado os meios mais faudaveís 
para evitar huma infeliz tragedia : 
os confelhos contínuos da Mãi fabia 
naõ abrandaõ do Príncipe a afpereza , 
antes menos effeitos lhe refultaõ, 
que a continua corrente em numa pedra ; 
igual fruíto colhi dos meus diftames , 
authorizados de ameaças feras , 
mas pouco as luzes da razaõ aclaraÕ 
nuns olhos onde hc todo o a-mor cegueira : 
inda mais, temo , que por minha morte , 
vivendo Ignez, comfupplicas o venqa 
a que tire a Fernando o Re^io. Throno , 

para 



De D. Tgnei 
' para que hum Filho feu nelle fucceda j 

' e como pede a mefma que domina •, 
iérá mui faciJ confeguir a em preza •, 
diííe pois , e vos lembro , que o que difle 
naõ he para inclinar- vos a fentença ■; 
de morte contra Ignez , mas feparalos 
convém de hfia uniaõ, que hum Rrino altera. 

Ah. Attendendo, Senhor , as circunfíâncias , 
que podem algum dia fer funeftas * 
convém já difíipalas , porque cefle 
com a caufa o effeito : a Sua Alteza 
naô abrandarão íiippiicas do Reino , 
rogos de Mãi , nem reprehençoens feveras 
de feu Monarca , e Pai , faõ muito fortes 
©s laços com que o. prende huma belleza , 
que por coftume adora , reeordai-vos 
dos infauftos fuccefíos , que em Caftella , 
por Leonor, do voíTò Genro Dama, 
a vofla. mefma Filha fuccederaõ •, 
vede como zeloza de hum amante , 
as artes diabólicas empenha 
para matar-vos. antes de nafcido* 
, hum Neto,que de Hefpanha a Coroa herda t 
deite cazo a lembrança doloroza 
nos affoitè. a-quebrar outras cadeias „ 
para que em D. Ignez , e voíTo Filho 
igual exemplo Portugal naõ veja ' r . 
e para fe evitar , em quanto he terrípo ■ „ 
a mandai para Hefpanha com cautela, 
entregar, aos Irmãos , pois defta forte 
íocegaremos fem que Ignez pereça. 

Egas* Meu parecer , Senhor, he difTerente •":-. » 
o grande amor fe aviva mais na auzeneia \ 
quem pódefegurar vos que nao figa 
r> Príncipe os feus paílbs, em. Caftella. 
faõ muito podetozos feus Irmãos : 
com o gofto de porém na cabeça 
a Coroa a fua Irmã, intimar podem 
a voífo Filho , que nos faça guerra. ,, 
c com a morte, de Ignez ficamos livre» ' 
de que maior ruína nos fucceda. 

ÂJto. Antevendo taõ fortes embaraços , 
também %o , Senhor, a mefma idea „ 
he menos- ponderável huma: vida „ 
S?e a £az: de todo. hum Reina,. ' 



âe Cnfíto. - 23 

Rei. Oh forte adverfa l 

logo , que morra ignez fera precizo , 
para o foecego , oh Ceos ! antes quizera * 
Monarcha naõ nafcer-, que ver-me Juiz , 
obrigado a taõ afpera íentença. 
Naõ ha outro remédio: — 

Egas. Naõ o encontro. 

Rei. Morrer deve a infeliz ? 

Ah. Aflim foccega 
hum Povo alvorotado. 

Rei. Ah defgraçadâ Ignez , que infaufta eítrella 
a Portugal te trouxe , para feres 
lamentável exemplo das bellezas ? 
Chamai-me eííà infeliz. 

Egas. >Prompto obedeço;. - Vai-fe. 

Rei. Mizera "formozurai 1 quem diíTera , 
que havia fer em ti culpa de morte, 
o dote , que te deo a natureza ! , 
mas de que fervio , flor delicala , 
para fer infeliz , nafcer taõ bella , 
• fe trouxeltes no ar do teu femblante 
: o prologo, gentil de huma tragedia ! 

Ah Se vos enterneceis , fera difficiJ , 
que efFeito a execução do golpe tenha. 

Rei. Sé me haveis de ver logo jufticeiro , 
deixai que por compaixão me enterneça :: 
mas ha formoza Ignez, para livrar-te , 
inda a piedade huma razaõ conferva. 

„ Sabe D. Igne% T itfMh Infantes, e Egas. 

Ign. Já do fúnebre aufpicio da ruma , 
a fera execução vejo prezente. 

Rc{. Já na cor doTeu.rofto fe examina 
o anriu! ! reitK;do má! , que na alma feflte ,. 

Ign, Meu. Rei } e, meu Senhor,que exccífo he efte?? 
Vindes ferir com tanta gente armada " 
a huma débil mulher-, que já proftrada 
vedes as vóíias plantas? que impiedade. í 
Reziftp acazo á minha defventura ? 
Para ateirar taõ frágil, crèaturâ' 
Lafta hum aceno ió da Mageftade.. 
NaÕ he, Senhor, o forte da belleza 
reforçada muralha , que preciza ■',. 
7>ara. rendeMe ,, os- golpes da fereza r 
«ede,, puis,, que. na fangue feminin»; 

fe 



2 4 Tragedia 

' fe embota o fio de huma rija efpada , 
r.ue a romper peitos de aqo he coftumada , 
que dirá quem vos vir , triftes memorias ? 
Com huma pobre Dama vingativo , 
ven cl o-vos" tantas vezes compaílivo , 
perdoando aos contrários nas vicdorias : 
para todos , Senhor , foís generozo } i 
e fereis para mim fó:rigorozo : 
mas terá meu deftino tal. violência , 
que até faça mudar em votfp peito 
o benigno coftume da clemência : 
naõ me attendeis , Senhor Filhos queridos , 
para quando gua r daís voffas correntes? 
Acompanhai os meus triítes gemidos 
com lagrimas de huns olhos innocer;tes : 
'ouvi de voflos Netos os clampres •, a _►_ \ 

t ntlies vos aprezento , ArTonfo inviílp, 
para ferem do indulto interceflor-.s , 
as méfmas teftemunhas do delicio. 

Aff. Meu Avó, naõ maltrate a minha Mãi , 
que tanto bem me quer : naõ vê que chora ?■ 

Ign. Kogai, meu Filho. Rei. D. Iguez , agora 
piedozo naõ fou , comvofco irado ti 

iõ me devo moftrar, pois foís a cauza > 
de ver todo o meu Reino alvoratado : 
a vofla morte pede, porque as núpcias 
do Príncipe eftorvais , e ainda dszejo 
livrar-vos do perigo , em que vos vejo ; ■ , 
o único remédio , que*defcubro , 
he defatardes já o laço> amante , 
com que a Pedro prendeis, eile á Infante 
dar logo ã maõ de Efpozo , e defta forte 
foccega o Povc. , e vos livrais da morte. . 

Ign. Oh de hum tiranno Povo iniqua inveja I 



ió pode dezatar a fepultura 

hiirn laco , que teceo em nós Igreja. 

Rei. Impede a mefma Igreja por preceito 
a iegitimidade de hum Confotcio., 
entre Compadres , e parentes feito : 
, qual parenta , Compadre de meu Filho , 
vos deveis feparàt ? Naõ por divorcio , 
mas íim , por nullo eftar vofe Con r oicío. 

fgw.Antes, Senhor, que ó vinculo Sígrado 
nos c índuzilfe ao thálamo fecundo , 
nos foi o parentefeo difpenfado 






em num , e outro grão. 

Rd. Que proferifle •, 

deígraçada de ti , que decedifte 
a fentença fatal da tua morte : 
já valer te naõ devo ! 

Ign. Oh dura forte ! 

quereis de huma juftiílima defenfa 
provas tirar para -a cruel fentença 1 
quando me declarais. parenta volte, 

. devo , para livrar-me dajruina , 

de voífo fangue Real moftrar-rae indigna : 
que tiranno rigor ! que lei he efta , 
que detremina a minha adverfidade ! 
he culpa em mim dé morte o fer honefta , 
fendo em todos virtude a honeftidade ? 
O confervar illezo o meu decoro 
me condemna a morrer por eííe crime 
faÕ goftozas as lagrimas que choro. 

Rti. A òftentaçaõ da honra n^õ crimino , 
louvo a virtude, e chpro o teu deftino. 

Eg. Naõ vos enterneçais, meu Soberano, d p. ao 

Ah. Como Ui! timo, e trifte defengano - ( Ri :". • 
: vo; ret ,ai , íenhor . mefiAo. 

Rti. Ignez amada ; 

minha. Filha ! oiuCeos. 

Ign. Eftou perdoará ? s: 

Rei. Naõ, Filh3,,qnaõ r porTa:osCeos conhecem 
quanto-os teus infortúnios me enternecem. 

Ign. Piedade, Senhor. 

Rei. Como poflò livrar-te do eaftigo',' 
fe todo hum Reino tens por inimigo. 

Ign. Oh mizera de mim ! Filhos amados ,» k - 
efpelho em que meus olhos fe reviaõ ? 
e já mal vos diftingaem.de eclipfadosí, 
nefte tremendo, inftante , 
pouco tem que. vencer a tirannia : 
defmaia o coração , e ao meu femblante 
cobre da morte apalida maõ fria. 
Ceo Divino , vaiei-me , pois clemência 
de coraçoens humanos naõ coníigo. 

Aff.' Se acaso naõ-jem.dó de minha Mãi , 
então naõ quero. fer. já, (eu .amigo. . 

Rei. Naõ f ha remédio, os Filhos lhe tirai. 

Ah. e Egas. Vinde , Infantes. . 

AJf. Pçixaitme vós também , 

fs 



De D, Igncí 

fe naÕ, hei de dizefo a meu Pai , 
, " que vos ha de matar com huma efpada. 

Ign. Meus Filhos mekvais: oh defgraçada , 
naõ me mateis, Senhor, por tantas vezes , 
'tornai e(Tas relíquias aos meus brados. . 
Mas ai ! que intenta a força da crueldade . 
partir-me o coração em mil pedaços. 

Rei. Já he muito esforçar a tolerância í 

opprimidOj ai de mim ! de mortar- anciã ! 
me finto em mal taõ forte. 
Egas, Álvaro, oh Ceos ! ficai com ella , 
que naõ me atrevo a ver a lua morte. 

Ign. Com eftes inimigos deshumanos 
medeixais ? Que rigor ? Soltai ,■ tirarmos , 
foltai os meus Infantes •, luzes minhas , 
a abraçar-me tornai, neftes retiros , ; 
em voífos lindos^ roftos , 
recebei os meus últimos fufpiros : 
mas já falta o valor , oh juftos Ceos I 

Rei. Vinde , meus Netos. Pega nos menines. 

Aff. Minha Mãi , a Deos , 

que por força nos leva noffo Avó. 

Ign. Ah meus ternos amores I minhas glorias > 
quando foubereis ter mais fentimentos , 
funeftas vos feraÕ minhas memorias. 
E vós ingrato á própria humanidade-, 
que a vida me tirais na flor da idade , 
vede que apello da mortal fentenqa 
para aquelle Supremo Tribunal 
onde refto fe julga o bem , e o mal : 
vede que .... mas aitriíte ! a luz do dia 
aos meus olhos fe vai efcurecendo , 
treme o pé mal feguro ..... e da agonia 
me vai já foffocando o horror tremendo ! 
Filhos, Filhos, eu merro, Pedro, Bfpozo l . ■ ' 
onde eítás, que em martírio taõ penozo y 
,naÕ vens a foccorrer-me 1 ah homicida, , 
o furor efcuzais , que eftou fem vida. Egft^ 
e Afoaro a recolhem nos bjaços* 

Rei. Triftç de mim 1 quem antes 
-fentença taõ eruel naõ pronunciara ? 
Infelices Infantes , rames» 

Aff. Ai minjia úsa-Mái-^em vos livrara I 



de Ca firo. 



Sabe D. Brnnçcu 



Brsnc. Senhor , procurar- vos venho , 
' de cuidados opprimida , 

para que .... 
Rei. Já eftais vingada , 

a pezar das anelas minhas , 

fe tendes coração fero , 

como eu tive , veie exfiafta 

a cauza .... mais ai de mim ! 

que me defampara a. vida. Vmyfs comos Mim- 
nos. 
Eranc. Senhor , efperai 



■H 
ouvi 



e dilfolvei-me' eíte 



1 siíàgtma ; 
mas vacilante fe" aparta 
EIRei , levando perdida 
a cór do„ rofío , èomigo 
quer f2lar , e naõ fe explica ? 
Naõ fei que me vaticina 
o coração afluflado? 
Oh C^eos ! fe Ignez morreria , 
para mais me atromentar 
a minha forte inimiga ? 
Aquelles v fignaes infauftos , 
eftas anciãs exceííivas , ' 
o folitario das Sallas , ' 
aie avizaõ da ma .mina. 

Sabe I>. Violante: 

Viol. Para onde Tugirei ? 
para onde me encaminha 
a minha funeíta íorte , 
que naõ veja tirannias I 
encontrarei menos feras 
efitre os dezertos da Libia t 
ou entre os certoens oceultos 
da Arábia ! 

Branc. Quem te motiva 

as lagrimas , e afflicçoens ? 

yiej. E vós me perguntais inda.j 
náõ me façais ^delinquente, 
dezafogando a agonia 
em queixas ^ que contra vós 



^ÍSè- 



• o fentimento profira. 
Eram. Contra m/m".* Ah , que faõ certos 

os prefagios da defdita ! ' 

Acâla. de atormenrar-me , 

}'or piedade te; explica. 
VM, já podeis fem contendora* 

gozar a efpera Ja dita , 

mas fémpre fera funefta ; 

pois com fangue principia •, 

á minha infeliz Senhora 

ifrou maõ cruel a vida, 

atraveíTando-lhe o peito .... 
Brnnr. Cala-te ^nais naõ profiras : J 

fc ja me o Ceo tefknaunha , 

quando do mundo a malícia 

me queira fazer culpada 

neíia tiranna ferida , 

que naõ dei confentimento 

para vingança taõ impia ; 

lamentei zelos , repúdios, 

chorei a defgraça minha , 

e agora a defgraça alheia 

a maior pranto me obriga : 

com eífa infeliz belleza 

nunca quiz fer vingativa , 

antes procurava a auzencia , 

por naõ cont-uítar lhe as ditas. 

E tu , amável creada ; 

defia formozura extincla , 

fe vires a Sua Alteza , 

íinceramentc lhe affirma , 

que de fera me naõ culpe 

nas fuás magoas precízas. 

Qne innocente do delicio 

parto , e neftai defpedida 

levo para atormentar-me , 

aom afflicçoens inauditas , 

prezaste aos meus tnftes olhos , 

as imagens da ruina. Vai-fe. 

Viol. Em íim~ ? perdi todo o amparo , 

em quem tanto me queria , 

e naõ-he- muito que perca 

de' fa udades '.a vida. Vai-je. 



Tragedia 



SCENA ir. 



Campo com prefpectiva de Palácio. 
Sabe o Príncipe , e o Conieflavel. 

Cond. /V Prefiai-vos , Senhor. 

Ped. x~\ Se acharei morto 
a meu amado Pai ? 

Cond. Senhor, conforto-: 

defia. humana penfaõ nenhum vivente 
fe pôde refervar : de hum aecídente 
^- eu o vi aflàltado-, 

porém tornando a íi , tremulo , e affli&o , 
me fupplicoa em lágrimas banhado , 
que vos foífe bufear , porque queria 
abençoar-vos na ultima agonia y 
fem palavra dizer, porque-a veheraencia 1 
me deixou do fucceffo tranfportadb', 
foi fó era mim refpofia a obediência. 
Vamos. 

Ped. Parece que hum grilhão pezadò* 
arrafto em cada pé , e me perfuad*' 
a dor -que....-' 

Sabe Nuno da Ciin^a. 

Niin. De-me Vo^a ívíageftade • 

a bei-jàr 5 a -maõ* Heíiia* . 
Ped. Oh Ceos ! morreu' É! Rei ?; 
Nun. A dura parca 

com>ú a vida ao Ínclito Monarca , 

digniííimo Pai voiío. 
Ped. Que funefta , 

~- camarga noticia * óh Ceos , he efta ! Fi- 
ca penjativo-.- . 
Cond. Efpirou o meu Rei ? Oh maírgiwAftro ! 
Nun.E antes delia morta a, punhaladas áf.buai 
para o oufro, 

foi por Lei fu a D Ignez deCaftro-, 

pela» tirannas mios de Egas Coelho , 

e Álvaro Gonfalves. 
Cond. O confelho , 

devia fer em taõ únpios rigores 



De D. Ignez de CaflrtK 



deffes mefcnos cruéis executores : 
mas tremaõ do feu afpero cafiigo. 

Nun. Quem o dirá a El Rei ? 

Cond. Eu naôjho digo; 
pois naõ tenho* valor. 

Nun. Da mefma forte 

me íinto. Tudo 4 p. hvm para o o uivo. 

Ped. He , em rim , da Parca forte 
tributo á vida humana , 
por Lei da Providencia Soberana : 
finto com anciã interna 
o naõ chegar a tempo 
. dos lábios imprimir na maõ paterna ; 
mas veraõ meus ValfaUos 
quanto chego nas penas a imita-los •, 
ide avizar Ignez deite> fuccelfo , Para 

Nuno. 
em quanto eu naÕ vou mefmo procurala , 
dizei-lhe , que eu adoro , e brevemente 
a Corte trocará o luto em galla. 

Nun. Muito temo a violência de hum repente 



d farte. 



taé amargo , e funeíto ! 
Ped. Ide já , Nuno. 
Nun. Sabei , Senhor .... 
Ped. O que ? 
Nun. Fado importuno ! ' 

Egas Coelho , e Álvaro Gonfalves 

apenas morto viraÕ 

a voíTo Régio Pai 3 logo fugirão , 

porque .... 
Ped. Bem fei : temera 6 meus rigores , 

porque me eraÕ cruéis accuzadores j 

ide já defpedir em feu alcance 

Cavallaria : quero que proftrados 

aos pés de Ignez , amada Efpoza minha , 

como mercê primeira de Rainha 

fejaõ por ella mefma perdoados : 

ide , amigos , deprefla. 
Nun. Oh ímpia forte-! Vai-fe. 

Cond. Receio , oh Ceps ! que a dor Lhe cauze 
a morte ! Vai-fe. 

Ped. Como alegre , e goftoza , 
» comigo reinará Ignez formoza ! 

os Vaflallos que as núpcias repugnavaõ' , 

jpor j&§ béijai-lhe a maõ 5 



( Soberba indigna ! ) 

hoje com profun jiífimo rei peito 

a devem conhecer, por meu preceito,,. 

comrt Efpoza de hum Rei , do Turono 

digna. 

» 

Sahe D. Vklants. 

Viol. Para onde peregrina , tiifte, e errante 

fujo deites cruéis ? {á mais de afluíra 

enxugarei ss lagrimas. 
Pedi Violante , 
Viol. Ai , infeliz , Senhor ? 
Ped Que ? Tu choras ?■ 

dize', que fuccsdeo ? 
Viol. Inda naõ fabe , 

que lhe matarão a adorada Efpoza ? 

Naõ me animo a dizello. 
Ptd. Àdonde eftá tua ama 

fala ? 
Viol. Sou eíhtua de gelloj 



parte. 



? Ai de mim ! 



d parte. Ped. Que vejo? Violante chora 



H parte.- 
e calla ! 
iinto em meu coração hum mortal fufto ? 
Fala , naõ me impacientes. 

&úé a Infanta. 

Branc. Pedro Auguíto, 

eu vos expreílb o que eífa fiel creada 

pronunciar naõ pôde de aífuíta.la : 

mas primeiro fabei , que juro ao Ceo , 

que em- nada tive culpa 

na tragedia fatal que fuceedeo. •• 

Por bárbaro confeiho 

de Álvaro cruel , e Egas Coelho , 

e deites dois tirannos precedido 

foi volfo Pai em cólera incendido 

á quinta , onde exiftra 

OT)bjeclo da voíTa idolatria , 

e mais feras, que as feras deshumanas , 

que naõ tem compaixão , almas tirannas ? 

Naquelle peito cândido ....eu morro ? 

Cravarão dois punhais. 

Ped, Oh Ceos ! foccorro. Cabe de/matado. 

Branc. Ipda mais efta pena, oh dia infauíl» 

D ii Viol 



3 Tragedia . 

'20/. Méu Rei, e meu Senhor r valei-lhe , oh ^ Pd. Os 

Ceos! cem. 

iranc Os fentidos EIRei de dór perdeo : . 
que fúnebre efpetaculo l oh lá gente , 
■^codi. 



necíos , ai de mim , na6 endoude- 



Sabe Nuno da Cunba } e guardas. 

Tv/9. Que nos manda Votía Alteza ? 
•^n7?2^. O voíTo novo Rei de hum accidente , 
foi agora aOaltado. 
' Nun. Que naõ fuccederá a hum deígraqado ! 
Senhor : trifte de mim I de fuor frio 
tem coberto' o femblante. 
âranc. Muito me aííiifia , e quazi defconfio 
de que a vi ia. lhe tire o exc fio amante : 
que tenho que efperar ,, a defventura 
cada vez em meus damnos mais fe apu- 
ra ; 
- em cada pé que movo , oh fentimento í 
encontro nova cauza ao meu tormento ! 
fugtf quero dê ver tanta defgraqa ; 
emais compadecida, do que amante ; 
para Navarra parto neíte inltante. Vai-je. 
yinl. Já vai tornando em íi. 
Nun. Efcíareci 6, 

e amayel Senhor t compadecido , 
t^ rada que he juíto o voífo fentimeiuo ) 
a hum Reino atiendei , que neceílita 
para íeu defenfot o voíTo alento : 
naõ vos tranfporte tanto huma defdita , ' 
que feja a. Portugal mais laftimoza , 
e f e a voíTainnocentc , e ama la Efpoza , 
qual bonina gentil , que perde a galla , 
corta ia de feu centro jaz fem vida , 
a vida confervai para vingala. 
Ped. Amada ígnez , tua alma efclarecida , 
d efam parando a bella contextura , 
onde toda a alegria he tranzitoría , 
foi gozar na alta esfera da luz pura , 
huma vida immortal que he toda gloria. 
Nun. Animai-voi , Senhor. 
Pcu. Éu enlouqueço ! 
.Nun. NaÕ 
■ éeííã. 



chegue i vclía pena a tanto ex- 



porque de hum bem a perda na 6 conhe- 
cem : 1 
conheço que perdi o mais amável , 
e mais grato da terra, irreparável 
a minha perda he, e do precizo 
deígoíto trânfportado , naõ he muito , 
que quem tanto perdefTe , perca o juízo. 
Vamos , Nuno da Cunha. 
Nun. Onde, Senhor ? 
Ped. A ver a Efpoza minha. 

Tu vai pôrprompta huma Coroa de ouro , 

Para Violante. 
que á tua ama offertei quando Rainha 
fazella prometti. 
yiol. VoíTo preceito 

já vou cumprir , Senhor , 
e renovar as magoas de meu peito. Vai-fe. 
Ped,. Vós para a Coroação a pompa Regia 
me preparai com toda a brevidade •, 
vejaõ no Throno aquella a quem a forte 
anticipou o fúnebre da morte 
ao fauílo efplendor da Mageftade. 
Nun. Oh verdadeiro amor ! fó tu mereces 
fer nà futura idade celebrado , * ' 
pois perdida a efperança de logrado 
d*entre asfombras da ruina refplandeces. Ft 
Ped. Eu me finto morrer , o penfamento 
a cada inftante com imagens triftes 
me renova hum motivo ao fentimento l 
Bárbaros coraçoens , adonde achar-yos 
poderá o meu furor inextinguível 
para dos cruéis peitos arrancar-vos ? 
Sobre o teu mefmo fangue derramando 
a vingança protefto , e lerá eira 
aos cruéis homicidas taõiunefta 
em cafligo da fua crueldade , 
que fervirá com fúnebre memoria ! 
de exemplo , e de terror á eternidade: 
fim , meu bem , vingativo , e fígorozo , 
como fera ...» 



Sebe 



Sabe o Condeftavek 



Tira a efpada , e in- 



Cond. Senhor ? 
é Ped. Morre ; aleivozo. 
vejie. 
tpnL Aos voíTos pés eftotf \ tnèèá Soberano : 
Ajoelha. ' 

porém dizei-mè a cauza antes do golpe. . 
plPfti Cuidei que via o pérfido inhumano , 

que a D. Ignez matou. 
■Çobí. Antes dezejo 

de meus annos cançados dar-lhe o refto , 
por me naõ fer taõ afpero , e funeftó* 
I vòr-vos neíTe eftado em que vos vejo. 
Ped. Ah meu fiel amigo», eu já naõ poíTo 
reziftir á violência do martírio : 
vamos ver a Ignez. 
Çond. Ah , meu Rei ! tremo 

de que a fua prezença Iaflimaveí 
, augmente a vo/fa dór com -tanto excéflb , 
/jue á vifta .naõ preaifta. 
Ped. Cendeftavel , 

na6 pôde fer maior a minha pena , 

e fe meu fado ordena 

a vida confervar-nie , he porque grato 

aos méritos de Ignez , fua memoria , 

façajmmortal , e a immortal hiftoria 

me lamente infeliz, mas naõ ingrato. Vao-fe. 

SCENA III. 

SaHa magnifica com docel , e cadeira de ef- 
patdar no meio do Theatro , om a qual 
eftá D. Ignez encoftada , e junto a ella 
huma Coroa em huma falva em cima de 
huma banca. 

Sabe o Príncipe , Ntmo da Cunha , .f o Condef- 
tamcl , Grandes } e Soldados. 



De D. Ignez- âe Çafíra. 

he pcffive! /Tgneí , oh dura forte ! j^ 

que quem vida me deo te deffe a morte £ 
a facrilega maõ , barbara , e fera , * 

que o teu fangue verteo*no duro effeifO 
naõ cahio como ferro? Oh quem poder*, 
foldar a pura neve -dé -teu : peito ; . 
quem poderá" animar-te a luz perdida- ^ • 
repartindo comtieo a minha vida : 
quaes feráõ .' os • caílígos", - 
. que^efcogite a lefnbranqa deita Scena 

contra efies deshumanos inimigos , 
. fem lei , fem.compaixao, e fem refpeíto f 
; 1 farei airir com golpes «mui prpfundós 
**~as efpadoas a hum , a outro o peito f 
«a feus mefmos olhos moribundos , 
que viraõ efte fangue , dezejara ^ 
moftrar os coraqoens , que os animar* 
a taõ impia fereza , 
como abortos cruéis da natureza $ 
i para monftros indómitos geradas : 
choro ,'meu bem , a tua adveríidade f 
e vivo para a minha faudade» . 
Cond~. Aqui tens á Coroa. Vfi-Ih*, 

Ped. De outra forte , Pondo-lèfr 



coroar-te intentei , fiel Conforte ? 
mas pçeferio a gloria a tirannia : 
• vós, meus x 'fieis VaíFallos , 
reverentes beijai efta maõ fria , 
que beijar deveríeis n'outro eftado , 
fe taõ ímpio naõ foíTe o noíTo fado. 
Coed. O primeiro ,fbu eu , que efta , ma5 
bel la 
reconheço da minha Soberana , 
com o refpeito que devo a vós , e a ellt* 
beija- lha. 
Nun. Com o mefmo "refpeito , 

qual Vaflallo fiel, cumpro o preceito. O msfi 
mo* - 

Os Grandes todos lhe leijaoa ma». 



Nun. T? Sta he a pompa , Senhor 
M-J brevidade 
me permittio [do tempo. 
Ved. Que impiedade ! 



} que a p £ d. Ene corpo gentil dezanimado , t ■ 

mais na morte , que em vida refpeitado ,. 
cobri já , Condeítave!. Corre a chr- 

úrp. 

A ia* 



a íncorabeneia do enterro vos entrego j 
com Mageftozo faufto v£nera>el 
• a levai a Alcobaça , e^as eftradas^ 
de ' tochas eftara6*illuminadas , 
e o mefmo expleodor fazer quizera , 
fe como dezafete legoas faÕ , , _ 
dezafete mil foífem , po?S: venera . , 
tanto .minha alma a eíía cinza amada , 
que dezejo exceder no, Mageítozo 
aquella maravilha celebrada, 



Trageâia 

que Artimizia erigio a feu Éfpozo •, 
e vós , que mda a pezar de efqueeimento , 
recommendais com prantomerecido 
os amores de Ignez-ao fentimento , 
e feu nome ao-refpeito que he devido , 
com verfo humilde aqui vos reprezento 
: .0: trágico infortuno dezabridp , 
Todo:. Que açonteceo á mizera mefquina , 
que depois' de fer mor.ta foi Rainha. 



- F I M. 



LISBOA, 

N^OíBcw de DOMINGOS GONSALVES. 






Anno MDCCLXXXV. 

Com licença da Real Meza Cenforia. 



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